O catolicismo
romano no Brasil está-se avigorando na busca de
estratagemas para transpor a apatia que o abraçou nas últimas
três décadas e, neste escopo, a vertente católica
que mais vem obtendo resultados é reconhecidamente a Renovação
Católica Carismática (RCC), cuja representação
exponencial encontra seu sinônimo no ícone simpático
do padre Marcelo Rossi.
O longa-metragem demandou o expressivo custo de 6,8 milhões
de reais e já usufrui o status de uma das produções
mais onerosas já realizadas em solo brasileiro. Num momento
em que o cinema nacional está em ascensão, um filme
religioso desfrutar deste prestígio é um fator preponderante
para que os católicos depositem suas esperanças em
seus resultados. E não é para menos, pois, segundo
estimativa mais pessimista, o filme deveria ser vislumbrado por
pelo menos 2,5 milhões de pessoas.
É claro que diante de toda esta aclamação,
nossa redação empenhou uma pesquisa com a finalidade
de analisar o trabalho, sobretudo por se tratar de uma produção
norteada por intenções e conteúdo religiosos.
Ponderando a acurada diligência da RCC em se transfigurar
num movimento semelhante ao evangélico, surgiu a necessidade
de mensurar até que ponto o filme destoaria do evangelho
bíblico, premissa que, caso fosse contrariada, causaria certa
admiração. O resultado da análise não
foi nada inesperado.
O título
Existe um chavão, cuja afirmação declara que
"a primeira impressão é a que fica". Certamente,
não querendo gerar uma impressão pejorativa, percebemos
que o próprio título do filme, Maria, mãe do
Filho de Deus, abranda a exaltação mariana reclamada
na clássica expressão Maria, mãe de Deus, cuja
primeira aplicação ocorreu no Concílio de Éfeso
(431 d.C.). Não é difícil interpretar que este
termo, jamais encontrado nas Sagradas Escrituras, sugere uma pessoa
acima (ou, no mínimo, ao lado) da Trindade, constituindo
assim uma "quaternidade", isto é, neste caso, uma
deusa ao lado da Trindade. Obviamente, a seleção de
um título ameno para com a posição protestante
denota um intuito ecumênico, porém, em detrimento disso,
é inegável o reconhecimento de que pelo menos o título
do filme é ortodoxo.
Sobre o enredo
Como podemos observar no vocativo do título, os holofotes
estão direcionados para Maria. A narrativa se passa numa
pequena vila interiorana do Rio Grande do Norte. O filme desenvolve
paralelamente duas histórias. A primeira delas se constrói
na fatalidade de uma jovem viúva (Maria) que possui uma filha
(Joaninha) com suspeita de um gravíssimo problema de saúde.
Certo dia, a mãe tem de ir ao médico de uma cidade
adjacente para obter a avaliação de um exame sobre
o caso da menina, e, não podendo levá-la, a deixa
sob a responsabilidade de um sacerdote (Marcelo Rossi) por algumas
horas. Este, por sua vez, narra para a menina a outra história
do filme, a angústia de Maria, a mãe do Filho de Deus.
A compaixão enfatizada pelo evangelho também se constata
nas ações do padre que, enquanto conta a história
para Joaninha, anda por toda a vila visitando os desafortunados
e pregando sua fé.
A história "bíblica" é, na realidade,
uma espécie de projeção da menina Joaninha
que enxerga na Maria da Bíblia sua própria mãe
e no anjo Gabriel, o padre Marcelo Rossi. Vejamos alguns pontos
proeminentes do enredo:
Maria opera um milagre
O relato mostra uma Maria segundo o estereótipo dos adesivos
católicos, exceto pelo fato de não possuir olhos azuis.
Pouco após a anunciação da gravidez sobrenatural,
informada pelo anjo Gabriel, Maria cura milagrosamente um pequeno
bebê com o simples toque de suas mãos na face da criança.
Seu pai, chamado no filme de Joaquim, que estava desesperado e desconfiado
de sua integridade, presencia o milagre e a reverencia, ajoelhando-se
diante dela. Mas Maria, ao contrário do que poderia se esperar,
repreende o pai, dizendo-lhe para não fazer tal coisa.
O menino Jesus opera um milagre
Depois de mencionar brevemente o episódio da matança
dos meninos delegada por Herodes, o filme mostra Jesus aos seis
anos de idade dando a vida a um pombinho morto. Posteriormente,
diante da morte de seu avô, o pequeno Jesus faz o sinal da
cruz em sua testa (uma alusão à extrema-unção)
e seus pais o indagam com quem ele aprendeu tal coisa. O menino
responde que o seu Pai (Deus) o ensinou. A seguir, o pai de Jesus
também falece e Jesus revela um pequeno conflito por ter
ressuscitado um pombo e ter sido incapaz de fazê-lo em relação
ao seu avô e seu pai. A partir daí, explora-se a solidão
de Maria, que passa a ser viúva e sem filhos.
Maria pede perdão a Jesus
Esse diálogo extrabíblico se dá no contexto
das bodas de Caná da Galiléia, quando Maria, segundo
o filme, pede perdão a Jesus por ter insistido no episódio
da transformação da água em vinho (Cf. Jo 2.1-12).
É oportuno ressaltar que justamente neste trecho encontramos
o evangelista João reprovando qualquer possibilidade de milagres
realizados por Jesus quando criança. A afirmação
bíblica, especialmente no evangelho de João 2.11,
é de que "Jesus principiou assim os seus sinais em Caná
da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus
discípulos creram nele" (grifo do autor).
Maria conselheira
Mesmo após seu batismo - uma atitude consciente, pois sabia
que deveria observá-lo para cumprir toda a justiça
(Mt 3.15) -, Jesus se mostra, no filme, com grandes conflitos, revelando
estar um pouco incerto em relação à sua missão.
Assim, Jesus se despede de Maria com a escusa de descobrir o que
o Pai (Deus) quer de si e recusa ser acompanhado por Maria, que
súplica para segui-lo. A despedida é concluída
com um conselho de Maria, que lhe diz para "nunca esquecer
que é o seu coração que deve guiar os seus
passos".
Maria perseguida
Com a fama de Jesus alcançando diversos lugares, a solitária
Maria é perseguida por uma mulher que afirma ser Jesus um
"servo do maligno". Esta mesma mulher também provoca
Maria, perguntando ironicamente onde Jesus estaria naquele momento
e por que ele a abandonou.
Maria intercessora
Maria intercede a Jesus, para que faça algo em relação
à prisão de seu primo João Batista, porém,
sem sucesso.
Maria auxiliadora
Maria está sempre a par dos acontecimentos que envolvem Jesus,
porém, há ocasiões em que o próprio
Jesus confidencia-lhe seu futuro. É o que notadamente acontece,
por exemplo, quando Jesus ternamente revela-lhe que sua hora estava
chegando (referindo-se ao seu martírio), dizendo: "Preciso
da sua força". Jesus ainda declara que Maria é
sua fortaleza e amor.
Maria participa do sofrimento de Cristo
Maria roga ao Pai para que poupe o sofrimento do Filho, porém,
considera: "Se eu não posso sofrer por ele, que eu sofra
com ele". Com a aproximação do clímax
do sacrifício de Cristo, Maria passa a ter alguns presságios
e se angustia. Também, Maria Madalena sonha com o sofrimento
de Maria no monte Calvário.
Maria e a crucificação
Enquanto Jesus carrega a pesada cruz na "via dolorosa",
Maria o abraça, aflita. No momento em que os algozes romanos
estão transpassando os cravos nas mãos de Jesus, Maria
tenta impedir, mas sem conseguir. Após a consumação
da morte de Cristo, seu corpo é retirado da cruz pelos soldados
e é reclinado junto ao colo de Maria.
Maria, mãe da humanidade
Depois de sua ressurreição, que, a propósito,
é primeiramente apregoada aos discípulos por Maria,
Jesus diz-lhe que necessita ir para o Pai, e Maria roga para que
Jesus a leve junto com Ele. Jesus não nega a sua petição,
entretanto, pede-lhe que "fique um pouco mais". E justifica
seu pedido com a seguinte preocupação: "O que
será de seus filhos?" (referindo-se a toda a humanidade).
Maria e a ascensão
Como prometido, depois de algum tempo, Jesus retorna à terra,
para buscar "sua mãe", uma referência à
ascensão corporal de Maria, cuja oficialização
foi proclamada pelo Papa Pio XII, em 1950.
Um holofote para Pedro
Apesar de os holofotes estarem direcionados à protagonista,
a mãe do Filho de Deus, o apóstolo Pedro não
poderia "passar em branco" nessa história, especialmente
porque é nele em quem, segundo a igreja romana, inicia toda
a sucessão papal. Assim, totalmente fora do contexto, na
ocasião em que o Jesus ressurreto encontra os discípulos
pescando e indaga a Pedro acerca de seu amor por Ele, também
o declara que "se tornaria a pedra sobre a qual seria erguida
a igreja de Cristo".
Maria ainda opera milagres
Concluindo o enredo, desta vez na história paralela, a mãe
de Joaninha retorna do médico para buscar sua filha, que
estava com o padre, e traz consigo uma reconfortante notícia:
"Joaninha havia sido curada milagrosamente", causando
espanto no médico e fazendo transbordar de alegria o coração
de sua mãe. Esta emocionante cena fecha o filme, atribuindo
o milagre a Deus e a Maria, justificando a declaração
do Padre Marcelo que disse na pré-estréia do filme
em Natal (RN): "Espero que vocês tenham trazido o lenço,
porque a história faz chorar".
Uma luz no fim do túnel
O leitor pôde perceber como o filme em análise, ao
contrário da Bíblia, é mariocêntrico.
É destacável que esse fato é reconhecido até
mesmo pela mídia secular."Curiosamente, os evangelhos
não são muito ricos em informações sobre
a Virgem - seu papel diminui na narrativa à medida que o
de Jesus cresce. Entre os relatos da crucificação,
por exemplo, só o evangelista João a menciona. No
filme do padre Marcelo, ao contrário, Maria aparece em diversos
episódios: a ressurreição de Lázaro,
o perdão de Maria Madalena, a aparição de Jesus
aos discípulos", foi a declaração contida
na matéria especial da revista Veja (08/09/03).
Considerações Finais
Finalmente, depois desta breve explanação, os otimistas
conseguem enxergar um pequeno saldo positivo nisso tudo. Não
podemos negar que a fé católica, em detrimento de
seus desvios, está mais próxima do protestantismo
do que muitos outros grupos religiosos, até porque o protestantismo
foi gerado de uma reforma doutrinária dentro do catolicismo.
Sabemos o quanto é difícil pregar o evangelho para
aqueles que não reconhecem a Bíblia como livro sacro,
como é o caso dos muçulmanos (Alcorão), dos
hindus (Bagavad-gita), dos budistas (Tripitaka) e outros.
A bem da verdade, até mesmo entre os grupos pseudocristãos
a apostasia da fé é difícil de ocorrer. Em
contrapartida, os católicos estão mais propensos ao
reconhecimento da fé evangélica. Apesar das diferenças,
no entanto, também possuem pontos em comum. Isto é,
metaforicamente, podemos dizer que há uma luz no fim do túnel.
Haja vista os testemunhos de várias pessoas que deixaram
de viver o catolicismo nominal para praticá-lo e acabaram
conhecendo mais a Bíblia e se convertendo ao evangelho.
Portanto, e sobretudo, temos de enxergar os católicos carismáticos
com amor, pois se estão abdicando de algumas regras tradicionais
para se assemelhar aos evangélicos é porque, ao menos
os fiéis deste grupo, reconhecem que há necessidade
de mudança, e é justamente este ponto que temos de
explorar, apontando a direção para a mudança
completa, o nascimento de uma nova criatura, segundo os rudimentos
da fé bíblica. A partir daí, naturalmente,
tais pessoas entenderão o verdadeiro lugar de Maria na teologia
bíblica.
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