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Em inúmeras entrevistas,
Mel Gibson procurou deixar claro que havia tentado fazer uma descrição
das últimas doze horas de vida de Jesus tão fiel ao
relato dos evangelhos quanto possível. Esclareceu também
que não é anti-semita e que ama o povo judeu. Chegou
mesmo a dizer que odiar o povo judeu é contra a sua fé
e constituiria em pecado. Sua fé, recobrada após a
crise pessoal pela qual passara, foi o motor da iniciativa de contar
a história do Salvador. Não se trata, conforme explica,
de única narrativa cinematográfica válida sobre
a paixão ou sofrimento de Jesus, mas da interpretação
da paixão segundo Mel Gibson.
Se o filme tem sido objeto de crítica acirrada por parte
de alguns, há outros que saúdam a obra do ator e diretor
como sendo, talvez, a mais brilhante encenação do
sofrimento de Jesus. Entre esses, muitos líderes evangélicos,
que vêem no filme uma excelente ferramenta evangelística.
Em muitos lugares dos EUA, especialmente no chamado Cinturão
da Bíblia e na Califórnia, membros de igrejas católicas
e evangélicas compraram ingressos antecipados para assistir
ao filme.
Muitas igrejas alugaram salas de cinema e lotaram-nas com seus
membros e convidados, e chegaram até mesmo a fazer apelos,
após a exibição, aos não-cristãos,
para que aceitassem a Cristo como Salvador. Além de promoverem
o filme entre seus adeptos, alguns líderes estão produzindo
materiais de estudo bíblico baseados no mesmo. Dessa forma,
tentam estimular os fiéis a pensarem no significado da morte
de Cristo e, após essa reflexão, serem usados como
guias em grupos de evangelização ou em conversas com
os interessados em saber mais sobre Jesus. Um líder dos batistas
do Sul, a maior denominação protestante dos EUA, chegou
até mesmo a saudar o filme como a maior estratégia
evangelística desde as cruzadas de Billy Graham.
Sucesso absoluto de bilheteria, a fita alcançou a cifra de
mais de 200 milhões de dólares nos doze primeiros
dias de exibição. Começa com a oração
agonizante de Jesus no Getsêmani e sua traição
por Judas e prossegue num crescendo de violência, pontilhado
de flashbacks, com Jesus sendo espancado pelos guardas do templo
e pelos soldados romanos, a hesitação de Pilatos em
condená-lo, o vozerio da turba pedindo sua crucificação
e termina com Jesus expirando na cruz, mas não sem uma breve
cena indicando a ressurreição. Esta poderia ser o
indício de que Gibson talvez pretenda fazer uma seqüência.
Entre o público, as reações têm sido
geralmente carregadas de fortes emoções. Num caso
extremo, uma mulher de meia-idade morreu de enfarte após
assistir à cena da crucificação.
Muitos saem dos cinemas chorando, tocados pelo sofrimento de Jesus,
nunca antes mostrado em tal detalhe em filmes de Hollywood, os quais
geralmente mostram um Jesus plastificado, impávido diante
do padecimento que lhe é imposto por seus algozes. O Jesus
de The Passion é um Cristo que se resigna ao sofrimento por
entender ser esta a vontade de Deus para sua vida, mas que é
suficientemente humano para vergar sob o peso da dor e da humilhação
às quais é submetido.
Um filme "católico"
O filme de Mel Gibson bem poderia ser classificado como "católico",
na opinião de Robert Johnston, professor de teologia e cultura
do Seminário Teológico Fuller. Ele se concentra na
paixão ou sofrimento de Cristo, um tema quase onipresente
na literatura católica, especialmente dos místicos.
Não há como negar que a flagelação de
Cristo é muito mais rememorada do que sua ressurreição,
no contexto católico romano. Podemos dizer que essa tendência
apresentada em todo o filme é antes retratada de forma incontestável
nos ícones católicos, os quais, na sua maioria, demonstram
um Cristo infante no colo de sua mãe protetora ou um Cristo
agonizando na cruz. São imagens que suscitam sentimento de
piedade, pena, compaixão e parecem revelar fragilidade e
impotência.
Obviamente, isso é um fator influenciador. Há católicos
que, em tempos da celebração da Páscoa, "pagam"
seus votos por meio de sacrifícios, o que dá a entender
que estão querendo tomar sobre si uma partícula do
que Cristo sofreu. Em casos extremos, há até aqueles
que chegam a "confeccionar" sua própria cruz, carregando-a
sobre os ombros e simulando uma espécie de "via-crúcis".
Diferentemente, os protestantes, em geral, observa Johnston, parecem
deixar de lado a paixão e para se concentrarem na ressurreição
de Jesus, sua vitória sobre a morte. Biblicamente, não
devemos querer construir um "cabo-de-guerra" sobre estas
questões. De fato, a Santa Ceia do Senhor é uma ordenança
deixada para que os cristãos rememorassem periodicamente
o sofrimento de Cristo na cruz, e isso deve ser observado. Mas qual
seria o valor do sacrifício de Cristo se Ele não tivesse
ressuscitado?
Além da exploração do sacrifício de
Cristo e a quase que ausente ressurreição, o filme
destaca Maria, a mãe de Jesus, e aspectos da tradição
católica romana, como o ato misericordioso de Verônica
de enxugar o rosto ensangüentado de Jesus, o que é cogitado
pela igreja romana como o véu em que ficou gravada a autêntica
imagem do rosto de Jesus. E mais: o diretor, usando de licença
artística, criou certos segmentos que não se encontram
nem nos evangelhos nem na tradição católica
para preencher a narrativa.
Um exemplo foi o uso de uma mulher no papel de Satanás, cujo
objetivo é comunicar a idéia de que o mal é
atraente. Outro é o uso deliberado das palavras de Jesus
fora do seu contexto original. Embora use elementos extrabíblicos,
pode-se dizer que o filme não é antibíblico.
A reconstrução de época é bem feita
e as personagens parecem reais, embora falem com uma entonação
artificial, talvez criada pela decisão de manter todos os
diálogos em aramaico e latim, acompanhados de legenda. Também
surpreende ver Jesus falando em latim com Pilatos, o que provavelmente
nunca ocorreu, pois o idioma normalmente utilizado pelos romanos
no oriente era o grego.
Sem dúvida, The Passion of the Christ passará para
a história não só como um grande sucesso de
bilheteria e por ter originado tamanha controvérsia, mas
também por provocar perguntas perenes.
Quem matou Jesus?
Uma das controvérsias geradas por The Passion of the Christ
está relacionada aos culpados pela morte de Jesus. Mel Gibson
está sendo acusado de ter mostrado os judeus como responsáveis
pelo ato. Convém lembrar que a Igreja Católica Romana
oficialmente manteve, durante muito tempo, que os judeus foram os
responsáveis pela execução de Jesus, chamando-os
de "povo deicida". Este estigma só foi removido
em 1965, pelo papa João XXIII, na encíclica Nostra
Aetate. Sendo um católico pré-conciliar ou tradicionalista,
não é difícil entender por que Gibson foi alvo
dessas acusações.
Os responsáveis pela morte de Jesus
Num contexto histórico, houve três responsáveis
pela morte de Jesus.
Pôncio Pilatos
O primeiro foi, sem dúvida, Pôncio Pilatos, o famigerado
procurador ou governador romano da Judéia, entre 26 e 36
d.C. Conhecido por sua hesitação diante das acusações
feitas a Jesus por seus inimigos, Pilatos decidiu "lavar as
mãos", ato que se tornou proverbial. "Então
Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando
água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo:
Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso" (Mt
27.24). Entretanto, sua responsabilidade pela execução
de Jesus não foi em nada diminuída, porque, como representante
imperial, era o único que podia ditar a sentença de
morte. Além disso, Pilatos estava ciente da inocência
de Jesus e sabia que seus inimigos o queriam condenar à morte
por motivos políticos.
Os judeus
O segundo responsável foi o grupo de judeus que pediu a
Pilatos a execução de Jesus. Embora os inimigos de
Jesus não detivessem o poder de matá-lo, eles claramente
queriam livrar-se do Salvador. Por causa de sua insistente demanda,
primeiramente acusando Jesus de ter quebrado a lei judaica e depois
de querer ocupar o lugar de César, no tocante à lealdade
do povo, Pilatos finalmente cedeu, ordenando sua crucificação.
O sumo sacerdote Caifás, os demais membros da classe sacerdotal
e os fariseus, inimigos viscerais de Jesus, foram auxiliados pela
turba que, incitada por aqueles, quando conclamada por Pilatos a
pronunciar-se sobre o destino de Jesus, gritava: "Crucifica-o".
"Então ele, pela terceira vez, lhes disse: Mas que mal
fez este? Não acho nele culpa alguma de morte. Castigá-lo-ei
pois, e soltá-lo-ei. Mas eles instavam com grandes gritos,
pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principais
dos sacerdotes, redobravam. Então Pilatos julgou que devia
fazer o que eles pediam" (Lc 23.22-24).
A atribuição da responsabilidade aos judeus de modo
indiscriminado, entretanto, baseia-se na resposta dada pela multidão
presente ao julgamento de Jesus, quando Pilatos tentou se eximir
da sua responsabilidade pessoal: "Caia sobre nós o seu
sangue, e sobre nossos filhos!" (Mt 27.25). Estas palavras
têm sido interpretadas por alguns teólogos como se
uma maldição divina tivesse vindo sobre o povo judeu
por causa de sua rejeição do Messias. Embora não
exista nenhuma base nos documentos neotestamentários para
sustentar esta hipótese, a suposta maldição
divina foi usada como justificativa para a perseguição
e massacre dos judeus ao longo dos séculos. Ela foi evocada
pelos Pais da igreja, pelos cruzados e pelos nazistas no holocausto
como uma justificativa para seu anti-semitismo e o extermínio
do povo judeu.
Jesus, o Cristo
Historicamente, o último responsável pela morte de
Jesus foi o próprio Jesus. Alguns críticos dizem que
Jesus manipulou as profecias messiânicas do Antigo Testamento
para fazer parecer que elas se cumpririam nele. Apregoam, por exemplo,
que, ao entrar na cidade de Jerusalém montado em um jumento,
Jesus estava fazendo parecer que cumpria o que o profeta Zacarias
tinha escrito quinhentos anos antes sobre a entrada triunfal do
Messias, ou Cristo, na capital israelita (Zc 9.9). Contudo, mesmo
se Jesus tivesse forjado o cumprimento dessa profecia e manipulado
o povo de Jerusalém, que o recebeu com alegria, tal como
profetizara Zacarias, há vários aspectos cercando
a morte de Jesus que Ele não poderia ter controlado. Pilatos,
por exemplo, não foi manipulado por Jesus. Até o último
instante o governador fez o que pôde para livrar Jesus de
seus acusadores, sem sucesso. Mas sob a ameaça dos líderes
dos judeus de ser denunciado a César, ele cedeu à
pressão por medo de pôr em risco sua carreira política.
Tanto os líderes quanto o povo, e também Pilatos,
ao pedirem a crucificação de Jesus estavam cumprindo,
involuntariamente, várias profecias que indicavam o modo
como o Messias iria sofrer nas mãos de seus algozes. O profeta
Isaías, no capítulo 53 de seu livro, escrito mais
de setecentos anos antes da crucificação de Jesus,
previu a morte do Messias, a quem chama de Servo de Javé.
Conforme Isaías, o Messias seria traspassado, uma clara indicação
do tipo de morte que Ele sofreria. Outros escritores do Antigo Testamento
também previram a natureza da morte do Messias. O Salmo 22
oferece uma surpreendente descrição da agonia sofrida
por um crucificado. No versículo 16, o salmista declara inequivocamente
que as mãos e os pés do Cristo seriam traspassados.
Tudo isso é muito surpreendente em vista de que os judeus
não praticavam a crucificação. A lei judaica
estipulava que os criminosos condenados à morte deveriam
ser executados por apedrejamento.
Se Jesus não manipulou as profecias em seu próprio
favor, então em que sentido Ele foi responsável por
sua própria morte? Os evangelhos dizem repetidamente que
Jesus afirmou que daria a sua vida voluntariamente e que ninguém
poderia tirá-la se Ele não o desejasse. No evangelho
de João, Jesus declara que daria sua vida espontaneamente
para tornar a recobrá-la: "Por isto o Pai me ama, porque
dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma
tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar,
e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de
meu Pai" (Jo 10.17,18).
Depois de comparar-se a um bom pastor que dá a sua vida pelas
ovelhas, Jesus indicou que sua morte seria vicária, isto
é, uma morte substitutiva, por meio da qual suas "ovelhas",
ou seja, seus seguidores, obteriam a vida eterna: "Eu sou o
bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas
o mercenário, e o que não é pastor, de quem
não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as
ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora,
o mercenário foge, porque é mercenário, e não
tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as
minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me
conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha
vida pelas ovelhas" (Jo 10.11-15).
Em muitas outras oportunidades, Jesus advertiu seus discípulos
de que iria sofrer e morrer em Jerusalém (Mt 16.2; 17.22-23;
20.17-19; 20.28). Em várias ocasiões, seus inimigos
tentaram matá-lo, mas todas as tentativas foram frustradas,
até chegar o momento em que Ele se ofereceu voluntariamente.
Mesmo depois de preso, Jesus poderia ter evitado sua morte se tivesse
negado as acusações contra Ele. Tanto o sumo sacerdote
como Pilatos lhe ofereceram a oportunidade de se livrar, mas, nas
duas ocasiões, Ele recusou tal oportunidade, por entender
que havia chegado o momento para o qual tinha vindo ao mundo.
Há, porém, outro sentido pelo qual os evangelhos
definem os responsáveis pela morte de Jesus. Esse sentido
poderia ser chamado de "responsabilidade cósmica".
Ao explicar seu propósito de vida aos discípulos,
Jesus declarou que o "Filho do homem não veio para ser
servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate por muitos"
(Mc 10.45). Com estas palavras, Jesus esclareceu, como fez em diferentes
ocasiões, que o propósito da sua vinda à terra
foi efetuar a reconciliação entre Deus e o ser humano,
que se havia alienado de seu Criador por intermédio do pecado.
Os evangelhos testemunham que Jesus "veio para o que era seu,
mas os seus o rejeitaram. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes
o poder de serem filhos de Deus; a saber: aos que crêem no
seu nome" (Jo 1.11,12). Este testemunho está presente
em todo o Novo Testamento, especialmente nas epístolas de
Paulo, que declara que "Cristo morreu pelos nossos pecados,
segundo as Escrituras" (1Co 15.3).
Portanto, respondendo à pergunta "Quem matou Jesus?",
num sentido bem real e bíblico, todos os seres humanos foram
os responsáveis últimos por sua morte.
Merecem confiança os evangelhos?
Quando se pensa na paixão de Jesus, uma das primeiras perguntas
que vêm à mente está relacionada à questão
da historicidade de Jesus. Para determinar se Jesus foi, de fato,
um personagem histórico, é necessário saber,
antes, se os evangelhos, os principais relatos existentes de sua
vida, obra, morte e ressurreição, são dignos
de confiança. Até o início do século
18, poucos se atreviam a duvidar da autenticidade dos evangelhos,
porém, com o advento do racionalismo, alguns teólogos
passaram a questionar sua historicidade e a atribuir os aspectos
sobrenaturais dos mesmos, como a divindade de Jesus, seus milagres
e ressurreição, a mitos desenvolvidos pelos primitivos
cristãos, para fornecerem uma aura de revelação
divina à sua religião e propagarem com sucesso sua
mensagem entre tantas outras superstições. A confiabilidade
dos evangelhos, como documentos autênticos, é, portanto,
a pedra de toque do cristianismo.
A datação dos evangelhos
Em primeiro lugar, vem a questão envolvendo a época
em que os evangelhos foram escritos. Os críticos dos séculos
18 e 20 chegaram a aventar datas extremamente tardias, como, por
exemplo, meados do século 2o d.C. Hoje, entretanto, sabe-se,
com razoável certeza, que todos os quatro evangelhos foram
produzidos no século 1o, enquanto os apóstolos e outras
testemunhas oculares dos eventos neles narrados ainda estavam vivos.
Para o evangelho de Marcos, supostamente o primeiro a ter sido escrito,
alguns estudiosos atribuem a data de 45 d.C., aproximadamente quinze
anos após a morte e ressurreição de Jesus,
embora a maioria o date entre 65 e 67 d.C. Dos documentos antigos
do Novo Testamento existentes ainda hoje, o mais antigo é
o Papiro Rylands 457, datado de cerca do início do século
2o d.C. Contendo trechos do capítulo 18 do evangelho de João,
este papiro faz que o manuscrito, saído das mãos do
autor, conhecido como autógrafo, seja datado de pelo menos
fins do século 1o. Outro papiro, conhecido como P75, também
datado do século 2o, contém grande parte dos evangelhos
de João e Lucas.
Entretanto, alguns estudiosos concluíram que um fragmento
do evangelho de Mateus antecede os dois papiros mencionados, estipulando
sua data para 68 d.C., aproximadamente. De qualquer modo, fica estabelecida
uma datação para os evangelhos que não excede
os limites do século 1o.
O conteúdo dos evangelhos é fidedigno?
Uma questão, ainda mais importante, vinculada à datação,
é se os evangelhos são testemunhos autênticos
da vida, morte e ressurreição de Jesus. Em outras
palavras, podemos aceitar o relato dos evangelhos como verídico?
Quando os evangelhos foram escritos, muitas testemunhas oculares
ainda estavam vivas, inclusive a maioria dos inimigos de Jesus.
Estas testemunhas poderiam ter agido para corrigir possíveis
erros contidos nos evangelhos.
A idéia de que os evangelhos contêm elementos místicos
não procede. Isso porque as testemunhas estavam vivas e um
mito, geralmente, leva séculos para se desenvolver. Para
dar um exemplo: as duas biografias mais antigas de Alexandre, o
Grande, datam de mais de quatrocentos anos após sua morte,
em 323 a.C. Muito material lendário foi criado acerca de
Alexandre, mas somente depois que as duas biografias foram escritas.
Ainda hoje, ambas são aceitas como dignas de crédito.
Esta comparação serve para mostrar como teria sido
praticamente impossível os mitos a respeito de Jesus se desenvolverem
em tão pouco tempo.
Os evangelhos foram corrompidos ao longo dos séculos?
Outra acusação feita por alguns críticos é
que os evangelhos foram corrompidos ao longo dos séculos.
Os evangelhos que temos, portanto, não seriam exatamente
iguais aos originais, mas o resultado de alterações
feitas por motivos religiosos e políticos. Entretanto, o
Novo Testamento é, escancaradamente, o documento mais bem
atestado da antiguidade. Existem mais cópias do Novo Testamento
do que de qualquer outro documento antigo. São mais de cinco
mil manuscritos em grego e versões antigas em siríaco
e outras línguas. A Ilíada de Homero, uma das maiores
obras da antiguidade grega, empalidece quando comparada ao Novo
Testamento. As cópias mais antigas existentes hoje são
dos séculos 2o e 3o d.C. Em geral, estas cópias são
aceitas pelos estudiosos como autênticas. Este exemplo serve
para realçar a evidência em favor da integridade dos
evangelhos.
E o que dizer das variantes nos manuscritos do Novo Testamento?
Este é outro ponto ressaltado para diminuir a confiabilidade
dos evangelhos. Por terem sido produzidas em diferentes áreas
e sob diferentes circunstâncias, e devido aos erros de ortografia
dos copistas, alguns manuscritos contêm diferenças
entre si. Bruce Metzger, uma das maiores autoridades em grego neotestamentário
da atualidade, afirma que as diferenças não afetam
substancialmente nenhuma doutrina cristã. Norman Geisler
e William Nix acrescentam: "O Novo Testamento, então,
não apenas sobreviveu em maior número de manuscritos
que qualquer outro livro da antiguidade, mas sobreviveu em forma
mais pura que qualquer outro grande livro - uma forma 99,5% pura".
O que dizer dos, às vezes, chamados "livros ocultos
da Bíblia", como o Evangelho de Tomás (Tomé)?
Esses livros foram escritos nos séculos 2o e 3o d.C. por
adeptos do gnosticismo. A reação dos cristãos
a este tipo de literatura foi imediata e radical. O gnosticismo
foi rechaçado e, com ele, toda sorte de literatura apócrifa,
incluindo os falsos evangelhos e outros escritos. Dessa forma, nunca
fizeram parte do cânon das escrituras cristãs. A sugestão
de que sejam livros "perdidos" não se sustenta
diante da evidência histórica, pois, em primeiro lugar,
tais obras fantasiosas não foram aceitas pelos cristãos
dos primeiros séculos.
O Jesus da história versus o Cristo da fé
Uma questão derivada da anterior é a relação
entre o Jesus histórico e o Cristo adorado pelos cristãos.
Seriam os mesmos? A historicidade de Jesus é reconhecida
universalmente hoje em dia, tanto pelos cristãos como também
pelos críticos da fé cristã. Nenhum estudioso
sério duvida da existência do carpinteiro de Nazaré.
A discussão, entretanto, centra-se na sua identidade. Para
alguns críticos, como os do Jesus Seminar, os cristãos
teriam alterado a imagem de Jesus, um camponês galileu, atribuindo-lhe
uma identidade divina que o próprio Jesus nunca teria reclamado
para si. Como um rabino obscuro, e possivelmente um operador de
curas, poderia ter-se transformado num objeto de adoração
de milhões de pessoas em todo o mundo?
A resposta oferecida pelos críticos baseia-se na mesma premissa
utilizada para a questão da confiabilidade dos evangelhos.
Cristãos de gerações posteriores teriam criado
mitos, por meio dos quais o humilde galileu foi transformado no
Filho de Deus, com prerrogativas que só o Deus dos judeus
ou, em menor grau, os deuses greco-romanos e das religiões
de mistério possuíam. A evidência histórica,
entretanto, aponta em outra direção. Antes mesmo de
os evangelhos terem sido escritos, a crença em Cristo como
Deus já havia-se estabelecido entre os primeiros cristãos.
O apóstolo Paulo iniciou seu ministério no final
da década de 40 d.C. e muitas de suas principais epístolas
foram escritas na década seguinte. Nestas, Paulo incorporou
credos e hinos dos cristãos, seus contemporâneos. Em
Filipenses 2.6-11, por exemplo, Paulo fala inequivocamente de Jesus
como "existindo em forma de Deus" antes de sua encarnação.
Em Colossenses 1.15-20, o apóstolo Paulo chama Jesus de a
"imagem do Deus invisível" no seu estado exaltado.
Alguns críticos chegam a acusar Paulo de ter sido um dos
responsáveis pela transformação do homem Jesus
no Cristo divino. Segundo eles, Paulo teria distorcido o evangelho
original de Jesus, convertendo-o de um simples rabino inovador no
objeto de devoção de seus discípulos posteriores.
Estas acusações, entretanto, não se sustentam
quando se leva em conta a totalidade dos ensinos de Paulo a respeito
de Jesus.
Para o apóstolo, o Cristo divino e exaltado pela ressurreição
é o mesmo Jesus histórico que morreu crucificado e
foi ressuscitado ao terceiro dia. Em 1Coríntios 15.3-7, Paulo
afirma sua crença nos fatos históricos, circundando
a morte de Jesus:
"Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi:
que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que
foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto,
uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda
a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois
foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por
derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo".
Estes mesmos fatos foram, posteriormente, asseverados nos evangelhos
pelas próprias testemunhas oculares da crucificação
e ressurreição de Jesus ou por autores ligados a essas
testemunhas. É relevante notar que Paulo disse ter recebido
a informação concernente à morte e ressurreição
de Jesus.
Craig Blomberg nota que, se a crucificação se deu
em 30 d.C., Paulo deve ter-se convertido ao cristianismo por volta
de 32 d.C. e, possivelmente, se encontrou com os apóstolos
em Jerusalém pela primeira vez em 32 d.C. Pode-se dizer,
então, conclui Blomberg, que a crença na ressurreição
de Jesus pode ser datada dentro de dois anos do próprio evento.
Quando comparada às biografias de Alexandre, escritas cerca
de quinhentos anos após a sua morte, por exemplo, ou aos
mitos criados em relação a personagens famosos da
antiguidade, que levaram séculos para ser forjados, a crença
na ressurreição tem muito mais apoio histórico,
pois foi esposada por testemunhas dos fatos. Estas testemunhas depois
a transmitiram a outros, entre os quais Paulo, que, por sua vez,
afirmava claramente sua crença na historicidade da ressurreição.
A importância da ressurreição para o cristianismo
Ele ressuscitou! Essa é a diferença abissal que sempre
permanecerá entre Cristo e os demais fundadores históricos
das religiões. Muitos opositores do cristianismo aventam
que não é um ato extraordinário ou inaudito
sofrer martírio em prol de uma causa, pois há registros
históricos de outros homens que assim fizeram. Entretanto,
a diferença está aqui: no túmulo. Jesus não
está mais lá! Isso o torna singular. Os evangelhos
atestam um Cristo que esteve morto e está vivo, não
um Cristo que esteve vivo e está morto. Veja que a diferença
de enfoque é franca. Metaforicamente, podemos dizer que o
cristianismo foi concebido de uma tumba vazia. Foi esta evidência
que levou os discípulos a entregarem suas vidas ao martírio.
Eles não morreram por algo que havia sido inventado por
eles próprios e que reconheciam não ser verdadeiro,
mas por terem vivenciado as circunstâncias que evidenciaram
a ressurreição de Cristo. Como diz James Stewart:
"O cristianismo é essencialmente uma religião
de ressurreição".
Se ignorarmos a ressurreição de Cristo, o surgimento
da igreja será inexplicável. O evento histórico
da ressurreição é a coroação
dos fatos e motivos que permearam a vida de Jesus entre os homens.
Pela narrativa bíblica, entendemos que: assim como somos
compelidos a aceitar a veracidade da encarnação, assim
também somos em relação à veracidade
da ressurreição. O apóstolo Pedro declara a
impossibilidade de Jesus não ter ressuscitado no plano divino
da redenção: "Ao qual Deus ressuscitou, soltas
as ânsias da morte, pois não era possível que
fosse retido por ela" (At 2.24). Uma vez que Cristo morreu
para ressuscitar - "Pois é Cristo quem morreu, ou antes
quem ressuscitou dentre os mortos" (Rm 8.34) - reconhece-se
uma lacuna indisfarçável, o fator ressurreição,
quando nos propomos falar sobre a morte de Cristo.
O uso pedagógico de The Passion
Diante de tanta polêmica gerada pelo filme de Mel Gibson,
cabe perguntar se a fita pode servir para algum propósito
maior. Muitos dos contendores parecem se esquecer de que o propósito
"número um" da indústria cinematográfica
é o entretenimento. Mas ao mesmo tempo que diverte, uma película
também transmite uma mensagem. Resta saber que mensagem os
milhões de espectadores que já assistiram ao filme
receberam.
The Passion of the Christ tem sido comparado, em círculos
cristãos, a uma produção anterior, realizada
pela Cruzada Estudantil para Cristo, intitulada Jesus, que, segundo
a própria Cruzada, foi o filme mais visto em toda a história.
Inteiramente baseado no evangelho de Lucas, Jesus foi produzido
com objetivos claramente evangelísticos e sem fins comerciais.
Equipes viajam por todo o mundo, de carro, em lombos de animais
e até a pé, arriscando a própria vida para
compartilhar a mensagem de Jesus em todos os rincões habitados
do planeta.
Embora feito por um diretor de Hollywood, The Passion of the Christ
não é um filme cristão, no mesmo sentido que
Jesus. Não se baseia exclusivamente nos relatos dos evangelhos
nem tem a pretensão declarada de ganhar adeptos para a fé
cristã. Contudo, é um testemunho desta fé.
No melhor estilo dos épicos da capital do cinema, narra "a
maior história já contada", ou pelo menos parte
da mesma. E a parte escolhida é extraída da porção
central dos evangelhos, à qual os evangelistas dedicaram
comparativamente mais páginas que ao restante da vida e ministério
de Jesus. Embora não sejam tão gráficos nem
tão detalhados como Mel Gibson ao relatarem o sofrimento
de Jesus, os autores dos evangelhos mostram claramente que a encarnação
de Cristo cumpriu seu objetivo na crucificação e ressurreição
de Jesus.
Tendo em mente que se trata de uma versão da narrativa do
evangelho segundo Mel Gibson, limitada pelas perspectivas do diretor,
The Passion pode ser utilizado como uma ferramenta para iniciar
uma conversa sobre o evangelho e o significado da paixão
e morte de Jesus. Apesar das limitações, é
um instrumento válido de evangelização para
uso de igrejas e grupos paraeclesiásticos, bem como indivíduos
que queiram compartilhar sua fé.
As perguntas que o filme provoca devem motivar os cristãos
a se prepararem para oportunidades talvez inéditas de responder
a todo aquele que lhes pedir a razão da sua fé.
Notas:
i Miguel A. Albanez é consultor e correspondente do ICP nos
Estados Unidos, Ph.D. em Estudos Interculturais do Seminário
Teológico Fuller e pastor da Primeira Igreja Batista Brasileira
de Los Angeles.
ii Johnston, Robert, Experiencing the Passion: A Personal Reflection
on Mel Gibson´s New Movie, in The SEMI,
iii March 8-12, 2004. Pasadena: Fuller Theological Seminary, p.
1, 6.
iv Bailey, Mark e Tom Constable, The New Testament Explorer. Nashville:
Word Publishing, 1999.
v In Strobel, Lee, The Case for Christ. Grand Rapids: Zondervan,
1998, p. 82-5.
vi Geisler, Norman L. e William E. Nix, A General Introduction to
the Bible, Chicago: Moody Press, 1980, p. 361.
vii Quadro extraído do Christian Apologetics and Research
Ministry In Strobel, Lee, Op. cit. Grand Rapids: Zondervan, 1998,
p.42-3.
Fonte: Defesa da Fé
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