Crisis of Conscience (Crise de Consciência) (Atlanta: Commentary
Press, 1992, segunda edição) de Raymond Franz (1922-),
pp. 198-222.
Capítulo 9: 1975: 'O Tempo Apropriado para Deus Agir'
Raymond Franz
"Não é para vós o saber os tempos ou
datas que o Pai colocou sob a sua própria autoridade."
-- Atos 1:7, New International Version.
Durante a segunda metade da presidência de Rutherford a maioria
das antigas profecias envolvendo datas, tão ardentemente
defendidas na primeira metade, foram gradualmente abandonadas ou
revistas.
O começo dos "últimos dias" foi alterado
de 1799 para 1914.
A presença de Cristo em 1874 foi também alterada para
1914 (como já tinha sido feito em 1922 com o começo
oficial do reinado ativo de Cristo previsto para 1878).
O início da ressurreição foi deslocado de
1878 para 1918.
Por algum tempo afirmou-se até que 1914 tinha de fato trazido
o "fim do mundo" no sentido de Deus ter 'legalmente' acabado
com a concessão de poder das nações na terra.
Também isto foi abandonado e sustentam agora que o "fim,"
ou "terminação do sistema de coisas" (como
é traduzido na Tradução do Novo Mundo) está
para acontecer.
Sendo invisíveis todas as coisas anunciadas, é óbvio
que a sua aceitação depende inteiramente da fé
de cada um nas interpretações oferecidas. Depois de
uma sessão em que estas profecias envolvendo datas e estas
mudanças vieram a discussão, Bill Jackson, membro
do Corpo Governante disse-me, a sorrir, "Nós costumava-mos
dizer, tire a data deste ombro e ponha-a no outro ombro."
Não foi senão depois da morte de Rutherford em 1942
que foi feita uma mudança relativa ao ano 606 A.E.C. como
o ponto de partida para os 2.520 anos. Estranhamente, o fato de
2.520 anos contados a partir de 606 A.E.C. levarem a 1915 E.C.,
e não a 1914 E.C., não foi reconhecido ou considerado
por mais de 60 anos.
Então, dissimuladamente, o ponto de partida foi atrasado
um ano para 607 A.E.C., permitindo a retenção do ano
1914 E.C. como o ponto em que terminaram os 2.520 anos. Nenhuma
evidência histórica tinha aparecido para indicar que
a destruição de Jerusalém tinha ocorrido um
ano mais cedo do que se acreditava. O desejo da organização
de reter 1914 como uma data marcada para a qual eles tinham apontado
por tantos anos (algo que não tinham feito em relação
a 1915) ditou que se atrasasse a destruição de Jerusalém
um ano, uma coisa simples de se fazer -- no papel.
Em meados da década de 1940 tinha sido decidido que a cronologia
usada durante as presidências de Russell e Rutherford estava
errada em uns 100 anos no que diz respeito à contagem do
tempo até à criação de Adão.
Em 1966, a organização disse que, em vez de vir em
1874 como fora previamente ensinado, o fim dos seis mil anos de
história humana viria em 1975.
Isto foi publicado no verão de 1966 num livro escrito por
Fred Franz, intitulado Vida Eterna na Liberdade dos Filhos de Deus.
No seu primeiro capítulo, o livro referia-se ao arranjo do
jubileu, que também tinha figurado proeminentemente nas predições
relativas a 1925, e argumentava (tal como também tinha sido
feito então) a favor da crença em seis "dias"
de mil anos cada, durante os quais a humanidade experimentaria a
imperfeição, aos quais se seguiria um sétimo
"dia" de mil anos no qual a perfeição seria
restaurada num grandioso Jubileu de libertação da
escravidão ao pecado, doença e morte.
O livro disse nas páginas 27-29:
41 Desde o tempo de Ussher, fizeram-se estudos intensivos da cronologia
bíblica. Neste século vinte, realizou-se um estudo
independente que não acompanha cegamente certos cálculos
cronológicos tradicionais da cristandade, e a tabela de tempo
publicada, resultante deste estudo independente, fornece a data
da criação do homem como sendo 4026 A.E.C.* Segundo
esta cronologia bíblica fidedigna, os seis mil anos desde
a criação do homem terminarão em 1975 e o sétimo
período de mil anos da história humana começará
no outono (segundo o hemisfério setentrional) do ano 1975
E.C.
42 Assim, seis mil anos da existência do homem na terra acabarão
em breve, sim, dentro desta geração. Jeová
Deus não tem limite de tempo, conforme está escrito
no Salmo 90:1, 2: "ó Jeová, tu mesmo mostraste
ser uma verdadeira habitação para nós durante
geração após geração. Antes de
nascerem os próprios montes ou de teres passado a produzir
como que com dores de parto a terra e o solo produtivo, sim, de
tempo indefinido a tempo indefinido, tu és Deus." Portanto,
do ponto de vista de Jeová Deus, a passagem destes seis mil
anos da existência humana são apenas como que seis
dias de vinte e quatro horas, pois este mesmo salmo (versículos
3 e 4) prossegue, dizendo: "Fazes o homem mortal voltar à
matéria quebrantada e dizes: 'Retornai, filhos dos homens.'
Pois mil anos aos teus olhos são apenas como o ontem que
passou e como uma vigília durante a noite." Assim, dentro
de poucos anos em nossa própria geração atingiremos
o que Jeová Deus poderia considerar como o sétimo
dia da existência do homem.
Qual seria o significado disto? O livro continua e faz esta aplicação
dos pontos desenvolvidos:
Quão apropriado seria se Jeová Deus fizesse deste
vindouro sétimo período de mil anos um período
sabático de descanso e livramento, um grandioso sábado
de jubileu para se proclamar liberdade através da terra a
todos os seus habitantes! Isto seria muito oportuno para a humanidade.
Seria bem apropriado da parte de Deus, pois, lembre-se de que a
humanidade ainda tem na sua frente o que o último livro da
Bíblia Sagrada chama de reinado de Jesus Cristo sobre a terra
por mil anos, o reinado milenar de Cristo. Jesus Cristo, quando
na terra há dezenove séculos, disse profeticamente
a respeito de si mesmo: "Porque Senhor do sábado é
o que é o Filho do homem." (Mateus 12:8) Não
seria por mero acaso ou acidente, mas seria segundo o propósito
amoroso de Jeová Deus que o reinado de Jesus Cristo, o "Senhor
do sábado," correspondesse ao sétimo milênio
da existência do homem.
Tinha a organização dito 'abertamente' que 1975 marcaria
o princípio do milênio? Não. Mas o parágrafo
acima era o clímax para o qual se encaminhava toda a argumentação
cuidadosamente construída daquele capítulo.
Não foi feita uma predição absoluta, incondicional,
acerca de 1975. Mas o escritor achou por bem declarar que era "apropriado"
e "bem apropriado da parte de Deus" se Deus começasse
o milênio naquele tempo específico. Pareceria razoável
que para um homem imperfeito dizer o que é ou não
é "acertado" para o Todo Poderoso Deus fazer, necessitaria
de uma boa dose de certeza, seguramente que não a mera 'expressão
de uma opinião.' A discrição requereria, mais
ainda, ordenaria isso. Ainda mais forte é a declaração
subsequente segundo a qual "seria segundo o propósito
amoroso de Jeová Deus que o reino de Jesus Cristo, o 'Senhor
do sábado,' correspondesse ao sétimo milênio
da existência do homem," sétimo milênio
esse que já tinha sido dito que começaria em 1975.
No mesmo ano, a edição de 8 de outubro de 1966 da
Awake! [em português: Despertai! de 22 de abril de 1967],
a revista associada à Watchtower, continha um artigo intitulado
"Quanto Tempo Ainda Levará?" e a seguir ao subtítulo
"Os 6.000 Anos Terminam em 1975," também se argumentava
que o milênio constituiria os últimos 1.000 anos de
um dia de descanso de Deus de 7.000 anos. O artigo continuava, dizendo
(páginas 19 e 20):
Consequentemente, o fato de nos estarmos a aproximar do fim dos
primeiros 6.000 anos da existência do homem é muito
significativo.
Será que o dia de descanso de Deus eqüivale ao tempo
em que o Homem tem estado na terra desde a sua criação?
Aparentemente, sim. Das mais fiáveis investigações
em cronologia Bíblica harmonizadas com muitas datas aceites
da história secular, descobrimos que Adão foi criado
no outono do ano 4026 A.E.C. Algures nesse mesmo ano Eva podia muito
bem ter sido criada, começando o dia de descanso de Deus
imediatamente a seguir. Em que ano terminariam, então, os
primeiros 6.000 anos da existência do homem e também
os primeiros 6.000 anos do dia de descanso de Deus? No ano 1975.*
Isto é digno de nota, particularmente em vista do fato de
os "últimos dias" terem começado em 1914,
e de os fatos físicos dos nossos dias em cumprimento da profecia
marcarem esta como sendo a última geração deste
mundo iníquo. Por isso podemos esperar que o futuro imediato
esteja cheio de acontecimentos emocionantes para aqueles que depositam
a sua fé em Deus e nas suas promessas. Isto significa que
dentro de relativamente poucos anos nós vamos testemunhar
o cumprimento das restantes profecias que têm que ver com
o "tempo do fim."
A Watchtower de 1.º de maio de 1968 [em português: A
Sentinela de 1.º de novembro de 1968] continuou esta estimulação
da antecipação. Usando muitos dos mesmos argumentos
do último artigo mencionado disse (página 272 [em
português: página 660]):
"O futuro imediato está certamente repleto de eventos
culminantes, pois este velho sistema está perto do seu fim
completo. Dentro de poucos anos no máximo as últimas
partes da profecia Bíblica relativas a estes "últimos
dias" vão-se cumprir resultando na libertação
da humanidade sobrevivente para o glorioso reino de Cristo de 1.000
anos. Que dias difíceis, mas, ao mesmo tempo, grandiosos
estão mesmo à frente!" [itálicos meus]
Hoje, mais de um quarto de século depois, podemos perguntar,
O que quer dizer a frase "o futuro imediato"? Quantos
anos são "poucos anos no máximo"?
Num artigo intitulado "O Que Trará a Década
de 1970?" a Awake! de 8 de outubro de 1968 [em português:
Despertai! de 22 de abril de 1969], enfatizou outra vez a brevidade
do tempo que resta, dizendo no princípio (página 13):
"O fato de cinqüenta e quatro anos do período chamado
'os últimos dias' já terem passado é altamente
significativo. Significa que restam apenas alguns anos, no máximo,
antes que o corrupto sistema de coisas que domina a terra seja destruído
por Deus."
Mais tarde, comentando sobre o ano de 1975 como o fim de seis mil
anos de história humana, o artigo disse (página 14):
"Existe outra maneira que ajuda a confirmar o fato de estarmos
a viver nos últimos anos deste 'tempo do fim.' (Dan. 12:9)
A Bíblia mostra que nos estamos a aproximar do fim de 6.000
anos completos de história humana."
As publicações da Watch Tower Society citaram repetidamente
declarações feitas por pessoas proeminentes ou "peritos"
em qualquer área que fizeram algum referência a 1975,
por exemplo, a declaração feita em 1960 pelo antigo
Secretário de Estado dos Estados Unidos, Dean Acheson, que
disse:
"Sei o bastante acerca do que se está a passar para
lhe assegurar que, daqui a 15 anos [portanto, em 1975], este mundo
será demasiado perigoso para se viver nele."
O livro Fome -- 1975!, escrito por dois peritos em alimentos, foi
citado repetidamente, particularmente estas declarações:
"Em 1975 um desastre de magnitude sem precedentes vai atingir
o mundo. Fomes, maiores do que quaisquer outras na história,
devastarão as nações subdesenvolvidas."
"Prevejo uma data específica, 1975, quando a nova crise
estará sobre nós em toda a sua importância terrível."
"Em 1975 desordem civil, anarquia, ditaduras militares, inflação
descontrolada, colapso nos transportes e inquietação
caótica serão a ordem do dia em muitas das nações
famintas."
Três anos depois do enfoque original sobre 1975 no livro
Vida Eterna na Liberdade dos Filhos de Deus, o autor, Fred Franz,
escreveu outra publicação intitulada A Paz de Mil
Anos que se Aproxima.1 A linguagem deste livro era ainda mais definitiva
e específica do que na publicação anterior.
Lançado em 1969, continha estas afirmações
nas páginas 25 e 26:
Mais recentemente pesquisadores sérios da Bíblia Sagrada
fizeram um ajuste na sua cronologia. Segundo os seus cálculos,
os seis milênios da vida da humanidade na terra terminariam
em meados dos anos setenta. Consequentemente o sétimo milênio
desde a criação do homem por Jeová Deus começaria
dentro de menos de dez anos.
———————
Para que o Senhor Jesus Cristo seja "Senhor até do sábado,"
o seu reino de mil anos teria de ser o sétimo numa série
de períodos de mil anos, ou milênios. (Mateus 12:8,
AV) Assim seria um reino sabático.
A argumentação aqui é muito clara e direta:
Como o sábado era o sétimo período a seguir
a seis períodos de trabalho, assim também o reino
de Cristo de mil anos será um sétimo milênio
sabático a seguir àqueles seis milênios de trabalho
e sofrimento. A apresentação não é de
modo nenhum indefinida ou ambígua. Como diz a página
26:
"Para que o Senhor Jesus Cristo seja 'Senhor até do
sábado,' o seu reino de mil anos teria de ser o sétimo
numa série de períodos de mil anos, ou milênios."
Tal como tinha sido determinado o que seria "apropriado"
e "acertado" para Deus fazer, também agora é
estabelecido um requisito para Jesus Cristo. Para ele ser o que
diz que será, 'Senhor do sábado,' então o reino
dele "teria de ser" o sétimo milênio numa
série de milênios. O raciocínio humano impõe
este requisito sobre o Filho de Deus. Seis mil anos terminariam
em 1975; o domínio de Cristo, segundo o argumento, "teria
de ser o sétimo" milhar de anos que se seguia. O "escravo
fiel e discreto" tinha, com efeito, esboçado o programa
a que ele esperava que o seu Mestre aderisse se este se quisesse
mostrar verdadeiro para com a sua própria palavra.
Embora a escrita seja mais polida, as expressões mais refinadas,
esta matéria é na essência muito semelhante
àquela apresentada no folheto do Juiz Rutherford Milhões
Que Agora Vivem Jamais Morrerão, no qual fez declarações
que depois admitiu serem de burro. Tirando a data que estava a ser
publicitada, era como se o relógio tivesse agora sido recuado
cerca de meio século para os dias anteriores a 1925. A diferença
era que as coisas ditas então estavam agora a ser ditas a
respeito de 1975.2
Quando os anos setenta chegaram, continuaram a ser criadas expectativas.
A Awake! de 8 de outubro de 1971 [em português: Despertai!
de 22 de abril de 1972] falou ainda mais uma vez de seis períodos
de sofrimento e trabalho seguidos por um sétimo período
(sabático) de descanso e disse [página 28]:
"Assim, ao nos aproximarmos do término de seis mil anos
de existência humana, durante esta década, há
emocionante esperança de que um grandioso Sábado de
descanso e alívio se acha deveras às portas."
Por baixo disto estava o seguinte gráfico [página
27]:
Todas estas afirmações destinam-se claramente a fomentar
e criar esperança, antecipação. Não
se destinam a acalmar ou dissipar um espírito de expectativa
excitada. É verdade que a maioria delas foram acompanhas
por algumas declarações do tipo 'nós não
estamos a dizer peremptoriamente,' ou, não estamos a 'apontar
para uma data específica', e que 'nós não sabemos
o dia e a hora.' Mas é preciso não esquecer que a
organização não era um principiante neste campo.
Desde o início, toda a sua história consistiu em suscitar
a esperança das pessoas em certas datas e depois ver essas
datas passarem sem que a esperança se tenha realizado. Em
casos anteriores as publicações da Sociedade procuraram
subseqüentemente lançar a responsabilidade por qualquer
desilusão sobre os destinatários da informação
e não sobre os emissores, como inclinados a esperar demais.
Portanto, certamente os homens com responsabilidades na organização
devem ter-se apercebido do perigo, do que é a natureza humana,
e quão facilmente se podem excitar grandes esperanças.
Ainda assim, ao mesmo tempo que evitavam cuidadosamente qualquer
predição explícita indicando que uma data específica
veria o princípio do milênio, aqueles homens com responsabilidades
aprovaram o uso das frases, "dentro de relativamente poucos
anos", "o futuro imediato", "dentro de alguns
anos no máximo", "apenas poucos anos, no máximo"
"os poucos anos finais" todas usadas nas revistas Watchtower
e Awake! com referência ao começo do reinado milenar
e todas num contexto que incluía a data de 1975. Será
que tais palavras não significam nada? Ou foram usadas de
maneira vaga, negligente? Será que se deve brincar com as
esperanças, os planos e os sentimentos das pessoas? E no
entanto a Watchtower de 15 de agosto de 1968 [em português:
A Sentinela de 15 de fevereiro de 1969, p. 116] até deixou
implícito que se devia ter cuidado para não colocar
muita ênfase nas próprias palavras de aviso de Jesus
Cristo.
35 Uma coisa é absolutamente certa, a cronologia bíblica
reforçada pelo cumprimento das profecias bíblicas
mostra que seis mil anos de existência do homem vão
acabar em breve, sim, nesta geração! (Mat. 24:34)
Este não é, portanto, o tempo para ser indiferente
e complacente. Este não é o tempo para se estar a
brincar com as palavras de Jesus de que "com respeito àquele
dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus nem
o Filho, mas unicamente o Pai." (Mat. 24:36) Pelo contrário
é um tempo em que se deve estar plenamente ciente de que
o fim deste sistema de coisas está a chegar rapidamente ao
seu fim violento. Não se engane, é suficiente que
o próprio Pai saiba o "dia e a hora"!
Como é que um "escravo fiel e discreto" poderia
alguma vez dizer isto -- de fato, dizer que, "é verdade,
o meu mestre disse isto e isto, mas não liguem muito; pelo
contrário, percebam que o que eu vos estou a dizer devia
ser a força orientadora na vossa vida"?
Algumas das declarações mais diretas vieram do Departamento
de Serviço dos escritórios internacionais (sede),
que elabora um boletim mensal intitulado "Ministério
do Reino," que só é distribuído às
Testemunhas e não ao público. O número de março
de 1968 [em português: maio de 1968, p. 4] instava que se
fosse para a atividade de pregação a tempo inteiro
("serviço de pioneiro") dizendo:
Em vista do curto período de tempo que resta, desejamos fazer
isso tão amiúde quanto as circunstâncias o permitam.
Apenas pensem, irmãos, restam menos de noventa meses até
que se completem os 6.000 anos da existência do homem na terra.
O número de maio de 1974 (em português: julho de 1974,
pp. 3, 4) do Ministério do Reino, tendo-se referido ao "pouco
tempo que restava", disse:
Receberam-se notícias a respeito de irmãos que venderam
sua casa e propriedade e que planejam passar o resto dos seus dias
neste velho sistema de coisas empenhados no serviço de pioneiro.
Este é certamente, um modo excelente de passar o pouco tempo
que resta antes de findar o mundo iníquo. -- 1 João
2:17.
Um bom número de Testemunhas fez precisamente isso. Alguns
venderam os seus negócios, desistiram de empregos, venderam
casas, quintas e mudaram-se com as suas esposas e crianças
para outras áreas para 'servir onde a necessidade era maior,'
esperando ter fundos suficientes para se manterem ao longo de 1975.
Outros, incluindo algumas pessoas mais velhas, levantaram o dinheiro
de apólices de seguro ou de outros certificados de valor.
Alguns adiaram operações cirúrgicas na esperança
de que a entrada do milênio eliminasse a necessidade destas.
Quando 1975 passou e os seus fundos acabaram ou a sua saúde
piorou seriamente, eles tiveram de enfrentar as duras realidades
e reconstruir as coisas o melhor que puderam.
Qual era o pensamento dentro do Corpo Governante durante este tempo?
Alguns dos homens mais velhos do Corpo tinham experimentado pessoalmente
as expectativas falhadas de 1914, 1925, bem como as esperanças
excitadas no princípio dos anos quarenta. A maioria, segundo
observei, tomou uma atitude do tipo 'esperar para ver.' Eles estavam
relutantes em pedir contenção. Estavam a ocorrer grandes
aumentos. Considere o registo de batismos para o período
de 1960 a 1975:
Ano Número de Batizados Ano Número de Batizados
1960 69.027 1968 82.842
1961 63.070 1969 120.805
1962 69.649 1970 164.193
1963 62.798 1971 149.808
1964 68.236 1972 163.123
1965 64.393 1973 193.990
1966 58.904 1974 297.872
1967 74.981 1975 295.073
Desde 1960 até 1966, a percentagem de aumento tinha diminuído
até praticamente parar. Mas depois de 1966, quando 1975 foi
focado, veio um período de aumento fenomenal, como o quadro
revela.
Durante os anos de 1971 a 1974 enquanto estive a servir no Corpo
Governante, não me lembro de ouvir nenhumas expressões
fortes de preocupação de membros do Corpo acerca das
expectativas excitadas que tinham sido geradas. Não pretendo
fingir que inicialmente não me senti eu próprio agitado
em 1966 quando o livro Vida Eterna na Liberdade dos Filhos de Deus
saiu com a sua imagem resplandecente da proximidade de um jubileu
milenar. Nem negaria ter participado na primeira parte da campanha
para focar atenção na data alvo de 1975. Mas cada
ano que passava de 1966 em diante tornava a idéia cada vez
mais irreal.
Quanto mais eu lia as Escrituras, mais todo o conceito parecia
desalinhado; não se enquadrava nas declarações
do próprio Jesus Cristo, declarações tais como:
"Com respeito àquele dia e àquela hora ninguém
sabe, nem os anjos do céu nem o Filho, mas unicamente o Pai."
"Portanto, mantende-vos vigilantes, pois não sabeis
em que dia vem o vosso Senhor."
"Assim também vós mostrai-vos prontos, porque
o Filho do Homem vem numa hora em que não o esperais."
"Mantendo-vos vigilantes, mantende-vos despertos, pois não
sabeis quando é o tempo designado."
"Não vos pertence ter conhecimento dos tempos e épocas
que o Pai colocou sob a sua própria jurisdição."3
Contudo, como membro da sede de uma organização que
estava excitada de alegria por experimentar uma onda de aumento
notável, não havia muito que pudesse fazer. Tentei
moderar alguns artigos sobre o assunto, que me foram submetidos
para editar, mas foi praticamente tudo o que fiz. Na minha atividade
pessoal tentei focar a atenção nos textos mencionados
acima, tanto em conversas privadas como em discursos públicos.
Um Domingo à noite em 1974, depois de a minha esposa e eu
termos voltado de um discurso em outra parte do país, o meu
tio, então vice-presidente, veio para o nosso quarto. (Sendo
a sua vista extremamente fraca, nós costumávamos ler-lhe
em voz alta a matéria de estudo da Watchtower todas as semanas.)
A minha esposa disse-lhe que no meu discurso naquele fim de semana
eu tinha acautelado os irmãos contra tornar-se indevidamente
excitado acerca de 1975. A sua resposta rápida foi, "E
por que é que eles não deviam ficar excitados? É
uma coisa sobre a qual se deve ficar excitado."
Não tenho dúvidas nenhumas que, de todos os membros
do Corpo Governante, o vice presidente era o que estava mais convicto
da justeza do que tinha escrito, e sobre cuja escrita outros tinham
trabalhado. Noutra noite no verão de 1975, um irmão
grego idoso chamado Peterson (originalmente chamava-se Papagyropoulos)
juntou-se à nossa leitura, como era seu costume. Depois da
leitura, o meu tio disse a Peterson, "Sabe, era muito semelhante
a isto em 1914. Precisamente até aos meses de verão
estava tudo calmo.
Depois, as coisas começaram a acontecer subitamente e a
guerra rebentou."
Antes disto, no princípio de 1975, o Presidente Knorr fez
uma viagem à volta de mundo, levando o Vice Presidente Franz
consigo. Em todos os países visitados, os discursos do vice
presidente centraram-se em 1975. Depois do regresso deles, os outros
membros do Corpo Governante, tendo ouvido relatos de muitos países
acerca do efeito excitante do discurso do vice presidente, pediram
para ouvir uma gravação, feita na Austrália.4
No seu discurso, o vice presidente falou de 1975 como sendo um "ano
de grandes possibilidades, tremendas probabilidades." Ele disse
à audiência que, segundo o calendário hebraico,
estavam "já no quinto mês lunar de 1975,"
com menos de sete meses lunares até ao fim do ano. Ele enfatizou
várias vezes que o ano hebraico iria acabar no Rosh Hashanah,
o Novo Ano judaico, em 5 de setembro de 1975.
Reconhecendo que muitas coisas teriam de acontecer num curto espaço
de tempo se o fim viesse naquela altura, ele depois falou sobre
a possibilidade de um ano ou perto disso de diferença devido
a um lapso de tempo entre a criação de Adão
e a criação de Eva. Ele fez referência às
expectativas falhadas em 1914 e 1925 e citou o comentário
de Rutherford, "Fiz figura de parvo." Ele disse que a
organização tinha aprendido a não fazer "predições
muito arrojadas, nem muito extremas." Perto do fim, contudo,
ele instou os ouvintes a não adotarem um ponto de vista impróprio,
e pensarem que a destruição que aí vinha poderia
estar "anos à frente," e focarem a sua atenção
em outros assuntos, como casar e constituir famílias, estabelecer
um bom negócio ou gastar anos na universidade em algum curso
de engenharia.
Depois de ouvir a gravação, alguns dos membros do
Corpo Governante expressaram preocupação dizendo que
se não estavam a ser feitas nenhumas "predições
muito arrojadas, nem muito extremas," pelo menos algumas predições
subtis estavam, e que o efeito era evidente na excitação
criada.
Esta foi a primeira vez que foi expressa preocupação
nas discussões do Corpo Governante. Mas não foi tomada
qualquer ação, nem foi decidida qualquer política.
O vice presidente repetiu muitos dos pontos do mesmo discurso em
2 de março de 1975, na cerimônia de graduação
da Escola de Gileade seguinte.5
1975 passou -- tal como tinham passado 1881, 1914, 1918, 1920, 1925
e a década de 1940. Foi dada muita publicidade por outros
ao falhanço das expectativas da organização
acerca de 1975. Houve considerável conversa entre as próprias
Testemunhas. Na minha opinião, a maior parte do que foi dito
não tocou no ponto principal da questão.
Senti que a verdadeira questão ia muito além da exatidão
ou inexatidão de algum indivíduo ou até em
saber se se pode ou não confiar numa organização
ou na sensibilidade e credulidade dos seus membros. Pareceu-me que
o fator verdadeiramente importante era como é que tais predições
se refletem no fim sobre Deus e sobre a sua Palavra. Quando homens
fazem tais vaticínios e dizem que o fazem baseados na Bíblia,
constróem argumentos para esse vaticínios a partir
da Bíblia, asseveram que eles são o "canal"
de comunicação de Deus -- qual é o efeito quando
as suas predições falham?
Será que isto honra a Deus ou contribui para edificar a
fé Nele e confiança na sua palavra? Ou tem o resultado
contrário? Não dá motivos adicionais para que
alguns se sintam justificados a atribuir pouca importância
à mensagem e aos ensinos da Bíblia? Aquelas Testemunhas
que fizeram grandes mudanças nas suas vidas em muitos casos
podiam ,e foi o que fizeram, remediar a situação e
continuar a viver apesar de estarem desiludidas. Mas nem todos o
puderam fazer. Contudo, seja qual for o caso, tinham sido provocados
sérios danos de várias maneiras.
Em 1976, um ano depois de ter passado aquela data tão amplamente
publicitada, alguns membros do Corpo Governante começaram
a insistir em que devia ser feita uma declaração reconhecendo
que a organização tinha errado, tinha estimulado falsas
expectativas.
Outros disseram que não concordavam, que isso "só
daria munições aos opositores." Milton Henschel
recomendou que a coisa sábia a fazer seria simplesmente não
mencionar o assunto e que com o tempo os irmãos parariam
de falar sobre isso. Claramente, não havia apoio suficiente
para uma moção a favor de se fazer uma declaração.
Naquele ano, um artigo na Watchtower de 15 de julho [em português:
A Sentinela de 15 de janeiro de 1977] referiu-se de fato às
expectativas frustradas mas teve de se conformar ao sentimento prevalecente
no seio do Corpo Governante, e não foi possível fazer
um reconhecimento claro da responsabilidade da organização.
Em 1977, o assunto surgiu outra vez numa sessão. Embora tenham
sido levantadas as mesmas objeções, foi aprovada uma
moção que defendia a inclusão de uma declaração
num discurso de um congresso, que Lloyd Barry tinha a responsabilidade
de preparar. Percebi que depois os membros do Corpo Governante Ted
Jaracz e Milton Henschel falaram com Lloyd acerca do que pensavam
do assunto. Seja como for, quando o discurso foi preparado, não
foi incluída qualquer referência a 1975. Lembro-me
de ter interrogado Lloyd a este respeito e a resposta dele foi que
não tinha conseguido encaixar a referência a 1975 no
assunto do discurso. Passaram-se quase dois anos e então,
em 1979, o Corpo Governante considerou novamente o assunto. Naquela
altura tudo indicava que 1975 tinha provocado uma grave "falha
na credibilidade."
Vários membros do pessoal da sede expressaram-se nesse sentido.
Um deles descreveu 1975 como um "albatroz" pairando sobre
as nossas cabeças. Robert Wallen, um secretário do
Corpo Governante, escreveu o seguinte:
"Eu tenho estado associado como uma Testemunha de Jeová
batizada há mais de 39 anos e com a ajuda de Jeová
continuarei a ser um servo leal. Mas mentiria se dissesse que não
estou desapontado, pois, quando vejo que os meus sentimentos a respeito
de 1975 foram acalentados pelo que li em várias publicações,
e quando me dizem que na realidade cheguei a conclusões erradas
por mim próprio, isso, parece-me, não é justo
nem honesto. Sabendo que não estamos a trabalhar com infalibilidade,
parece-me apropriado que quando são cometidos erros por homens
imperfeitos, mas tementes a Deus, sejam feitas correções
quando os erros são descobertos."
Raymond Richardson do Departamento de Redação disse:
"Não estão as pessoas mais inclinadas a ser humildes,
e mais dispostas a depositar confiança, onde existe honestidade?
A própria Bíblia é o maior exemplo de honestidade.
Esta é uma das razões mais salientes porque acreditamos
que ela é verdadeira."
Fred Rusk do Departamento de Redação, escreveu:
"Apesar de quaisquer declarações oficiais que
possam ter sido feitas entretanto, admoestando os irmãos
a não dizerem que o Armagedom viria em 1975, a verdade é
que houve vários artigos nas revistas e noutras publicações
que foram além de meramente sugerir que o Velho sistema seria
substituído pelo novo sistema de Jeová em meados dos
anos setenta."
Merton Campbell do Departamento de Serviço escreveu:
"No outro dia uma irmã telefonou de Massachusetts. Ela
estava a trabalhar. Tanto a irmã como o marido estão
a trabalhar para pagar contas que se acumularam por causa de doenças.
Ela expressou ter-se sentido tão confiante que 1975 traria
o fim que ambos estavam a ter problemas em suportar os fardos deste
sistema. Este exemplo é típico de muitos irmãos
que encontramos."
Harold Jackson, também do Departamento de Serviço,
disse:
"O que é preciso agora não é uma declaração
dizendo que estávamos enganados acerca de 1975 mas antes
uma declaração explicando por que é que todo
o assunto tem sido ignorado há tanto tempo em vista do fato
de tantas vidas terem sido afetadas. Agora é com uma falha
na credibilidade que nos deparamos e que pode ser desastrosa. Se
vamos dizer alguma coisa, falemos francamente e sejamos abertos
e honestos com os irmãos."
Howard Zenke, do mesmo Departamento, escreveu:
"Certamente não queremos que os irmãos leiam
ou ouçam alguma coisa e depois digam para si mesmos que a
atitude que tomamos eqüivale a um 'Watergate.'"
Outros fizeram comentários semelhantes. Ironicamente, alguns
dos que agora se expressavam com críticas mais fortes tinham
estado eles próprios entre os que mais se faziam ouvir antes
de 1975, acentuando aquela data e a extrema "urgência"
que ela requeria, tinham até escrito alguns dos artigos citados
anteriormente, tinham aprovado a declaração do Ministério
do Reino que elogiava aqueles que estavam a vender casas e propriedade
à medida que 1975 se aproximava. Muitas das declarações
mais dogmáticas acerca de 1975 foram feitas por representantes
viajantes (Superintendentes de Circuito e de Distrito) que estavam
todos sob a supervisão direta do Departamento de Serviço.
Na sessão do Corpo Governante de 6 de março de 1979,
foram apresentados os mesmos argumentos contra publicar qualquer
declaração -- que isso iria expor a organização
a maior criticismo da parte dos opositores, que nesta data tão
tardia já não havia necessidade de pedir desculpas,
que na verdade não se conseguiria nada com isso. Contudo,
mesmo aqueles que argumentavam assim estavam menos inflexíveis
do que em sessões anteriores. A razão era um fator
em particular: os números da atividade mundial tinham registado
sérias quebras já por dois anos.
Os relatórios anuais do número total de participantes
na atividade de testemunho revelam isto:
Ano N.º Total RelatandoActividade % Aumento SobreAno Anterior
1970 1.384.782 10,2
1971 1.510.245 9,1
1972 1.596.442 5,7
1973 1.656.673 3,8
1974 1.880.713 13,5
1975 2.062.449 9,7
1976 2.138.537 3,7
1977 2.117.194 -1,0
1978 2.086.698 -1,4
Esta quebra, mais do que qualquer outro factor, pareceu importante
para os membros do Corpo Governante. Houve uma votação
de 15 contra 3 a favor de uma declaração que reconhecesse
a quota parte de responsabilidade da organização pelo
erro. Essa declaração foi publicada na Watchtower
de 15 de março de 1980 [em português: A Sentinela 15
de setembro de 1980].
Tinha demorado quase quatro anos até que a organização
finalmente admitisse, através da sua administração,
que tinha estado errada, que tinha, durante uma década inteira,
construído falsas esperanças. Não que uma declaração
tão cândida, embora verdadeira, pudesse ser feita.
O que fosse escrito tinha de ser aceitável para o Corpo como
um todo para publicação. Eu sei, porque fui designado
para escrever a declaração e, tal como em casos similares
antes, eu tinha de ser guiado -- não por aquilo que gostaria
de dizer ou até pelo que pensava que os irmãos precisavam
de ouvir -- mas pelo que poderia ser dito e receber a aprovação
por dois terços quando fosse submetido ao Corpo Governante.
Hoje, o fato de terem sido criadas esperanças centradas em
1975 ao longo de toda uma década é minimizado como
não tendo nenhuma importância particular. A essência
das palavras de Russell em 1916 é novamente expressa pela
organização: Aquilo "teve certamente um efeito
muito estimulante e santificador sobre milhares de pessoas, e todas
elas podem agradecer ao Senhor -- até pelo engano."
1914 e "Esta Geração"
"Pois o leito mostrou-se curto demais para se estirar nele,
e o próprio lençol tecido é [demasiado] estreito
para se enrolar nele." -- Isaías 28:20.
O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová sente uma considerável
incomodidade quanto ao que continua a ser a maior profecia da organização
relacionada com datas. O período de tempo reservado para
o seu cumprimento está-se a mostrar muito curto e apertado
para conter as coisas preditas. A passagem de cada ano só
acentua esta incomodidade.
1914, durante mais de três décadas o ponto final das
profecias da organização relacionadas com datas, é
agora o ponto inicial para a profecia que constitui o estímulo
principal para a "urgência" na atividade das Testemunhas
de Jeová. É afirmado que as palavras de Jesus Cristo,
"Deveras eu vos digo que esta geração não
passará de maneira nenhuma sem que todas estas coisas ocorram,"
começaram a ter aplicação naquele ano, 1914.
Repare nas afirmações que estão em negrito.
Jesus estava obviamente a falar daqueles que tinham idade suficiente
para presenciar com compreensão o que aconteceu quando os
"últimos dias" começaram. Jesus estava a
dizer que algumas daquelas pessoas que estavam vivas quando surgiu
o 'sinal dos últimos dias' ainda estariam vivas quando Deus
trouxesse o fim deste sistema.
Mesmo se admitirmos que jovens de 15 anos de idade teriam o discernimento
suficiente para se aperceberem da importância do que aconteceu
em 1914, ainda assim os mais novos desta "geração"
teriam perto de 70 anos de idade hoje. Portanto a grande maioria
da geração a que Jesus se referiu já desapareceu
na morte. Os que restam estão-se a aproximar de uma idade
avançada. E lembre-se que Jesus disse que o fim deste mundo
iníquo viria antes de essa geração desaparecer
na morte. Isto, por si só, diz-nos que os anos que faltam
antes de vir o fim predito não podem ser muitos.
Quando a revista Awake! de 8 de outubro de 1968 (páginas
13, 14 [em português: Despertai! de 22 de abril de 1969])
discutiu isto há mais de um quarto de século nos tempos
anteriores a 1975, a ênfase era colocada sobre quão
proximamente a geração de 1914 iria desaparecer, quão
pouco tempo faltava para o fim do período de vida dessa geração.
Se uma Testemunha de Jeová qualquer sugerisse nesse tempo
que as coisas poderiam continuar por mais vinte ou trinta anos seria
vista como manifestando uma má atitude, que não evidenciava
uma fé forte.
Quando 1975 passou, a ênfase mudou. Agora faziam-se esforços
para mostrar que o período de duração da geração
de 1914 não era tão pequeno como se poderia pensar,
que ainda se poderia prolongar por mais alguns anos.
Assim, a Watchtower de 1.º de outubro de 1978 [em português:
A Sentinela de 15 de janeiro de 1979] mencionou, não aqueles
presenciando "com compreensão aquilo que aconteceu"
em 1914, mas os que "poderiam observar" os acontecimentos
que começaram naquele ano. A mera observação
é muito diferente da compreensão. Isto poderia logicamente
baixar o limite de idade daqueles que formam "esta geração".
Dando continuidade a esta tendência, dois anos depois, a Watchtower
de 15 de outubro de 1980 [em português: A Sentinela de 15
de abril de 1981, p. 31], citou um artigo da revista U.S. News &
World Report que sugeria a possibilidade de dez anos de idade serem
o ponto em que os acontecimentos começam a criar "uma
impressão duradoura na memória de uma pessoa."
O artigo disse que, se isso fosse verdade, "então existem
hoje mais de 13 milhões de americanos que se recordam da
I Guerra Mundial."
'Recordar-se' também permite considerar uma idade mais baixa
do que a compreensão (que se sugeriu existir em "jovens
de 15 anos de idade" na Awake! de 1968 citada anteriormente).
De fato, a I Guerra Mundial continuou até 1918, tendo o envolvimento
americano começado apenas em 1917. Portanto a idade de 10
anos apresentada na revista noticiosa não se aplica necessariamente
a 1914.
Embora diferentes maneiras de medir o tempo possam ganhar um ano,
ou perto disso, aqui e ali, o fato é que o período
da geração de 1914 está a diminuir com grande
rapidez, visto que a taxa de mortalidade é sempre maior entre
aqueles mais idosos. O Corpo Governante está ao corrente
disto, pois o assunto veio a discussão várias vezes.
O assunto veio a lume durante a sessão do Corpo Governante
em 7 de junho de 1978. Fatores anteriores levaram a isto. Albert
Schroeder, membro do Corpo Governante, tinha distribuído
aos outros membros uma cópia de um relatório demográfico
sobre os Estados Unidos. A informação indicava que
menos de um porcento da população que já tinha
passado a adolescência em 1914 ainda estava viva em 1978.
Mas um fator que chamava mais atenção tinha que ver
com declarações que Schroeder tinha feito quando visitou
certos países na Europa.
Chegavam relatórios a Brooklyn dizendo que ele tinha sugerido
a outros que a expressão "esta geração"
usada por Jesus em Mateus capítulo vinte e quatro, versículo
34, aplicava-se à geração dos "ungidos",
e que enquanto algum destes ainda vivesse a "geração"
não teria passado. Isto era, claro está, contrário
ao ensino da organização e não estava autorizado
pelo Corpo Governante.
Quando o assunto foi abordado, depois do regresso de Schroeder,
a interpretação que ele tinha sugerido foi rejeitada
e foi votado que fosse incluída uma "Pergunta dos Leitores"
num número futuro da Watchtower reafirmando o ensino tradicional
a respeito de "esta geração."6 Curiosamente,
não foi dirigida nenhuma repreensão ou censura ao
membro do Corpo Governante Schroeder por ter divulgado o seu ponto
de vista não autorizado, contrário à posição
oficial, enquanto na Europa.
O assunto surgiu outra vez tanto na sessão de 6 de março
como na de 14 de novembro de 1979. Como estava a ser focada atenção
no assunto, fiz cópias Xerox das primeiras vinte páginas
do material recebido do ancião sueco que explicava em pormenor
a história da especulação cronológica
e revelava a verdadeira fonte do cálculo dos 2.520 anos e
da data 1914. Cada membro do Corpo recebeu uma cópia. Além
de um comentário casual, eles não acharam apropriado
discutir a matéria.
Lyman Swingle, como coordenador do Departamento de Redação,
já estava familiarizado com este material. Ele chamou a atenção
do Corpo para algumas das afirmações dogmáticas
e insistentes publicadas nas Watch Towers de 1922, lendo partes
destas em voz alta para todos os membros. Ele disse que era muito
novo em 1914 (só tinha então cerca de quatro anos
de idade) para se lembrar de alguma coisa, mas que se lembrava das
discussões que tinha havido na casa dele a respeito de 1925.7
Disse que também sabia o que tinha acontecido em 1975, e
que pessoalmente não se queria enganar a respeito de mais
uma data.
No decorrer da sessão, eu disse que a data inicial [para
os 2.520 anos dos tempos dos Gentios] da Sociedade, 607 A.E.C.,
não tinha qualquer tipo de apoio na evidência histórica.
Quanto a 1914 e à geração desse tempo, a minha
pergunta foi: Se o ensino tradicional da organização
é válido, como é que podemos aplicar as palavras
acompanhantes de Jesus às pessoas que viviam em 1914? Ele
disse: "Quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está
próximo às portas," e "quando estas coisas
principiarem a ocorrer, erguei-vos e levantai as vossas cabeças,
porque o vosso livramento está-se aproximando." As publicações
afirmavam regularmente que aquelas palavras se começavam
a aplicar de 1914 em diante, aos cristãos que viviam em 1914.
Mas se assim era, então a quem dentre eles é que isto
se poderia aplicar? àqueles que tinham na altura 50 anos
de idade? Mas esses, se ainda fossem vivos, teriam, agora (isto
é, em 1979, na data da discussão) 115 anos de idade.
Aplicava-se aos que tinham 40 anos de idade? Esses teriam agora
105. Mesmo os que estavam na casa dos 30 teriam 95 e aqueles acabados
de sair da adolescência teriam já 85 anos em 1979.
(Mesmo estes teriam mais de 100 se ainda fossem vivos hoje.)
Portanto, se aquelas palavras motivadoras 'levantai as vossas cabeças
porque o vosso livramento está-se aproximando, está
próximo às portas,' se aplicavam de fato às
pessoas em 1914 e significavam que elas podiam ter esperança
de ver o fim, então seria razoável pensar que esse
anúncio devia ser qualificado com as palavras: "Sim,
vós podereis vê-lo -- isto é, desde que sejais
agora muito jovens e vivais uma vida muito, muito longa." Como
um exemplo, mencionei o meu pai que, nascido em 1891, era apenas
um jovem de vinte e três anos em 1914. Ele viveu, não
apenas setenta, ou oitenta anos, mas chegou aos oitenta e seis anos
de idade. Ele estava já morto há dois anos e tinha
falecido sem ver as coisas que tinham sido preditas.
Portanto perguntei ao Corpo quão significativa poderia ter
sido em 1914 a aplicação das palavras de Jesus em
Mateus capítulo vinte e quatro, versículos 33 e 34,
se os únicos que podiam vê-las cumpridas eram crianças
apenas na adolescência ou ainda mais novas? Não foi
dada nenhuma resposta específica.
Vários membros, contudo, expressaram o seu apoio ao ensino
da organização acerca de "esta geração"
e da data 1914. Lloyd Barry expressou consternação
pessoal por existirem dúvidas dentro do Corpo a respeito
do ensino. Referindo-se às afirmações das Watch
Towers de 1922 que Lyman Swingle tinha lido, ele disse que não
via nada de preocupante nelas, que eram "verdade atual"
para os irmãos daquele tempo.8 Quanto ao fato de a geração
de 1914 estar acabada, ele indicou que na União Soviética
existem regiões onde as pessoas vivem 130 anos.
Ele insistiu que fosse expressa aos irmãos uma posição
unida de forma que eles mantivessem o senso de urgência. Outros
expressaram opiniões similares.
Quando o Presidente me voltou a conceder a palavra, o meu comentário
foi que parecia que precisávamos de ter em mente que aquilo
hoje ensinado como sendo "verdade presente" poderia tornar-se
com o tempo "verdade passada," e que a "verdade presente"
que substituiria essa "verdade passada" poderia ela própria
ser substituída por "verdade futura." Eu sentia
que a palavra "verdade" usada dessa maneira se tornava
simplesmente sem significado.
Dois membros do Corpo disseram que se a explicação
corrente não era a correta, então qual era a explicação
das palavras de Jesus? Como a questão me parecia dirigida,
respondi que pensava que havia uma explicação que
se harmonizava com as Escrituras e com os fatos, mas qualquer coisa
que fosse apresentada com certeza não devia ser uma "inspiração
do momento," mas antes algo cuidadosamente pesquisado e ponderado.
Eu disse que pensava existirem irmãos capazes de fazer esse
trabalho mas eles precisariam da autorização do Corpo
Governante. Estava o Corpo Governante interessado em que isto fosse
feito? Não houve resposta e a questão foi abandonada.
No fim da discussão, com excepção de uns poucos,
os membros do Corpo disseram que na sua opinião 1914 e o
ensino sobre "esta geração" ligado a essa
data deviam continuar a ser defendidos. O Coordenador do Comitê
de Redação, Lyman Swingle, comentou, "Está
bem, se é isso que querem fazer. Mas pelo menos vocês
sabem que no que diz respeito a 1914, as Testemunhas de Jeová
obtiveram a coisa toda -- tudo, tudo, completamente -- do Segundo
Adventismo."
Talvez uma das coisas que mais me perturbou foi saber que, enquanto
a organização insistia com os irmãos para manterem
confiança inabalável na interpretação,
havia homens em posições de responsabilidade dentro
da organização que tinham eles próprios manifestado
não ter confiança total nas predições
baseadas na data de 1914.
Como exemplo notável disto, na sessão de 19 de fevereiro
de 1975, depois de o Corpo Governante ter ouvido o discurso gravado
de Fred Franz acerca de 1975, discutiu-se a incerteza das profecias
envolvendo datas. Nathan Knorr, o presidente naquela altura, disse:
"Há algumas coisas que eu sei -- sei que Jeová
é Deus, que Cristo Jesus é o seu Filho, que ele deu
a sua vida como resgate por nós, que existe uma ressurreição.
Sobre outras coisas eu não tenho tanta certeza. 1914 -- não
sei. Temos falado acerca de 1914 já há muito tempo.
Podemos estar certos e espero que estejamos."9
Naquela sessão a data em discussão era 1975, portanto
foi uma surpresa que 1914, data muito mais fundamental, fosse referida
nesse contexto. Conforme foi dito, as palavras do presidente foram
proferidas, não numa conversa privada, mas perante o Corpo
Governante em sessão.
Antes da discussão maior acerca de 1914 (na sessão
completa do Corpo Governante, em 14 de novembro de 1979), o Comitê
de Redação do Corpo tinha discutido numa reunião
se era ou não aconselhável continuar a insistir em
1914.10 Na discussão do comitê foi sugerido que nós
podíamos pelo menos evitar mencionar a data. Recordo-me de
Karl Klein nos ter lembrado da prática algumas vezes seguida
de simplesmente não mencionar um certo ensino durante algum
tempo, de forma que se fosse feita alguma mudança, não
causasse uma impressão tão forte.
Significativamente, o Comitê de Redação votou
unanimemente que se seguisse basicamente essa mesma política
nas publicações a respeito de 1914. Esta posição,
contudo, foi sol de pouca dura, já que na sessão completa
do Corpo Governante de 14 de novembro de 1979 ficou claro que a
maioria era a favor de enfatizar a data como de costume.
Que as interrogações sobre este ensino não
se limitavam a Brooklyn foi-me provado por um incidente que ocorreu
enquanto eu fazia uma viagem à África Ocidental no
outono de 1979. Na Nigéria, dois membros da Comissão
da Filial Nigeriana e missionários de longa data, levaram-me
a visitar uma propriedade que a Sociedade tinha comprado a fim de
construir uma nova sede para a Filial. Na viagem de regresso perguntei
quando esperavam ser possível a mudança para o novo
local. A resposta foi que, com a limpeza do terreno, obter a aprovação
dos planos e das licenças necessárias, e depois a
construção propriamente dita, era improvável
que a mudança fosse feita antes de 1983.
Por causa disto, perguntei, "Vocês recebem algumas perguntas
dos irmãos locais quanto ao período de tempo que passou
desde 1914?" Houve um silêncio momentâneo, e depois
o Coordenador da Filial disse, "Não, os irmãos
Nigerianos raramente fazer perguntas desse tipo -- mas NÓS
sim." Quase imediatamente o missionário de longa data
disse, "Irmão Franz, seria possível que a referência
de Jesus a 'esta geração' se aplicasse apenas a pessoas
daquele tempo que viviam a destruição de Jerusalém?
Se fosse esse o caso, então tudo bateria certo."
Era evidente que da maneira que o ensino existente explicava as
coisas, nem tudo parecia bater certo para ele. A minha resposta
foi simplesmente que supunha ser essa uma possibilidade mas que
não havia muito mais que pudesse ser dito a respeito dessa
idéia. Repeti esta conversa ao Corpo Governante depois do
meu regresso, pois deu-me um exemplo das questões que existiam
na mente de homens por todo o mundo, homens respeitáveis
em posições de considerável autoridade. Os
comentários que os homens na Nigéria fizeram e a maneira
como os fizeram indicavam claramente que eles tinham discutido a
questão entre eles antes da minha visita.
Pouco depois do meu regresso de África, numa sessão
do Corpo Governante em 17 de fevereiro de 1980, Lloyd Barry expressou
outra vez o que pensava sobre a importância do ensino a respeito
de 1914 e de "esta geração". Lyman Swingle
disse que a matéria publicada nas "Perguntas dos Leitores"
em 1978 não tinha deixado o assunto esclarecido nas mentes
dos irmãos. Albert Schroeder contou que na Escola de Gileade
e nos seminários das Comissões de Filial, os irmãos
disseram que falava-se agora de 1984 como sendo uma nova data possível,
sendo que em 1984 passavam setenta anos sobre 1914 (o número
setenta era evidentemente olhado como tendo alguma importância
especial). O Corpo decidiu discutir novamente o assunto 1914 na
próxima sessão.11
O Comitê do Presidente, constituído por Albert Schroeder
(Presidente), Karl Klein e Grant Suiter, produziu então um
documento muito pouco usual. Eles forneceram uma cópia a
cada membro do Corpo Governante. Dito de maneira simples, estes
três homens sugeriram que, em vez de se aplicar a pessoas
que eram vivas em 1914, a expressão "esta geração"
começaria a aplicar-se em 1957, quarenta e três anos
mais tarde!
Esta é a matéria exatamente como estes três
membros do Corpo Governante no-la deram:
Para os Membros do Corpo Governante -- Em Agenda para Quarta-feira,
5 de março '80Pergunta: O que é "esta geração
(genea')?" (Mt. 24:34; Mr. 13:30; Lucas 21:32)TDNT (muitos
Comentários) diz genea' "denota principalmente o sentido
de contemporâneos." Vol. 1, p. 663Quase todos dizem que
genea' difere de genos; genos significa descendência, pessoas,
raça. Veja TDNT Vol. 1 p. 685 (genos em 1 Pedro 2:9)A resposta
pode estar relacionada com a questão em Mt. 24:33. O que
é que se quer dizer com: "Quando virdes todas estas
coisas"?O Comentário de Lange (Vol. 8) sugere que "estas
coisas" não se refere a 70 E.C., nem à parousia
de 1914 mas aos versículos 29, 30 os fenômenos celestes
que agora vemos começaram a era espacial de 1957 em diante.
Nesse caso seria então a geração contemporânea
da humanidade vivendo desde 1957.Três SecçõesO
Comentário de Lange divide o 24.º capítulo de
Mateus em "três ciclos."O 1.º ciclo dele --
Mat. 24:1-14 2.º ciclo -- Mat. 24:15-28 3.º ciclo -- Mat.
24:29-44 (synteleia ou conclusão) (Veja Vol. 8 pp 421, 424
e 427) Baseado na questão de Mat. 24:3 em três partes.The
Watchtower e O Reino de Deus de Mil Anos (ka) também dividiram
agora Mateus 24 em três partes por assim dizer(1) Mat. 24:3-22
Tem cumprimentos paralelos no 1.º século e nos nossos
dias desde 1914. (Veja w 75 p. 273, ka p. 205)(2) Mat. 24:23-28
Período dentro da parousia de Cristo de 1914. (Veja w 75
p. 275)(3) Mat. 24:29-44 "Fenómenos Celestes" tem
aplicação literal desde que começou a era espacial
em 1975 e dai em diante até incluir a erkhomenon de Cristo
(vinda como executor no princípio da "grande tribulação.")
(Veja w 75 p 276 par. 18; ka pp 323 a 328)"Todas estas coisas"
teria de remeter para trás no contexto para os itens mais
próximos no sinal composto, nomeadamente, os fenômenos
celestes dos versículos 29 e 30.*Se isto for verdade:Então
"esta geração" refere-se à humanidade
contemporânea vivendo como pessoas com discernimento de 1957
em diante.*Confirmando no pensamento de C. T. Russell em Comentário
Bereano, p. 217:"Genea, pessoas vivendo contemporaneamente
que testemunham os sinais acabados de mencionar." Vol. 4 p.
604.Comitê do Presidente, 3/3/80
1957 foi o ano em que o primeiro Sputnik Russo foi lançado
para o espaço exterior da terra. Evidentemente o Comitê
do Presidente pensou que aquele acontecimento podia ser aceite como
marcando o princípio do cumprimento destas palavras de Jesus:
"... o sol ficará escurecido, e a lua não dará
a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e os poderes
dos céus serão abalados."12
Baseada nessa aplicação, a conclusão deles
seria como eles declararam:
"Então 'esta geração' refere-se à
humanidade contemporânea vivendo como pessoas com discernimento
de 1957 em diante."
Os três homens não estavam a sugerir que 1914 fosse
abandonado. Ficaria como o "fim dos Tempos dos Gentios."
Mas "esta geração" não começaria
a ter aplicação senão em 1957.
Em vista do decréscimo rápido do número de
pessoas da geração de 1914, esta nova aplicação
da frase poderia indubitavelmente ser até de mais ajuda do
que alguma pessoa vivendo alegadamente 130 anos em certa região
da União Soviética. Quando comparado com o início
em 1914, esta nova data inicial, daria 43 anos adicionais para o
período abrangido pela expressão "esta geração"
preencher.
As normas do Corpo Governante requeriam que para um Comitê
poder recomendar alguma coisa teria de haver unanimidade entre os
membros do Comitê (de outro modo o ponto de vista dividido
devia ser apresentado ao Corpo para se tomar uma decisão).
A apresentação da nova idéia a respeito de
1957 era portanto uma sobre a qual os três membros do Comitê
do Presidente devem ter estado de acordo.
Penso que, se fossem interrogados sobre esta apresentação
hoje, a resposta seria, "Oh, isso foi só uma sugestão."
é possível mas se é assim, foi uma sugestão
feita seriamente. E para Albert Schroeder, Karl Klein e Grant Suiter
terem trazido tal sugestão ao Corpo Governante eles devem
ter estado dispostos nas suas próprias mentes a ver a mudança
sugerida ser feita. Se, de fato, a crença e convicção
deles quanto ao ensino já antigo da Sociedade sobre "esta
geração" (como tendo aplicação
de 1914 em diante) tivesse sido forte, firme, inequívoca,
certamente nunca teriam vindo com a nova interpretação
que apresentaram.
O Corpo Governante não aceitou o novo ponto de vista proposto
por estes membros. Os comentários feitos mostraram que muitos
consideravam-no fantasioso. Contudo, o que é fato é
que os membros do Corpo Governante Schroeder, Klein e Suiter apresentaram
a sua idéia como uma proposta séria, revelando a sua
própria falta de convicção quanto à
solidez do ensino existente sobre o assunto.
No entanto, até hoje continuam a ser publicadas declarações
arrojadas, categóricas, enérgicas, a respeito de 1914
e de "esta geração" como sendo fatos biblicamente
estabelecidos pela organização "profeta"
e todas as Testemunhas de Jeová são instadas a pôr
uma confiança total e a levar a mensagem a outras pessoas
por todo o mundo. Num esforço aparente para acalmar preocupações
sobre as fileiras cada vez mais pequenas da geração
de 1914, a mesma Watchtower (15 de outubro de 1980, página
31 [em português: A Sentinela de 15 de abril de 1981]) que
deixou implícito que a idade limite para os membros dessa
geração podia ser baixada para dez anos de idade,
também disse:
"E se o sistema iníquo deste sistema sobrevivesse até
ao virar do século [o ano 2000], o que é altamente
improvável em vista das tendências mundiais e do cumprimento
da profecia bíblica, ainda existiriam sobreviventes da geração
da I Guerra Mundial."
No virar do século, os que tinham dez anos em 1914 teriam
noventa e seis anos de idade. Ainda assim, alguns deles poderiam
ainda andar por cá e evidentemente isto era visto como suficiente
para as palavras de Jesus se cumprirem -- dependendo, é óbvio,
da aceitação da idéia de Jesus ter dirigido
particularmente as suas palavras a crianças de dez anos.
Hoje não é feita nenhuma menção a crianças
"de dez anos" mas em vez disso a referência é
simplesmente "àqueles que viviam em 1914" ou similar.
Claro que isto permite incluir bebês recém nascidos.
Mas agora, na década de 1990, com o terceiro milênio
mesmo a chegar, até isto apenas serve de alívio momentâneo
para o problema. Mesmo um recém nascido em 1914 teria mais
de oitenta anos hoje.
Não faço idéia do que trará o futuro
quanto à posição do Corpo Governante nesta
matéria. Ao enfatizarem 1914 com vigor redobrado, eles, de
fato, "fizeram a cama" e parece que se sentem obrigados
a deitarem-se nela. Mas a duração da geração
de 1914 está a ser como uma cama que é demasiado pequena
para ser confortável, e os raciocínios usados para
cobrir essa "cama" doutrinal são como um lençol
tecido que é demasiado estreito, incapaz de tapar, neste
caso, os fatos objetivos da realidade.
É possível, claro, que algures no futuro eles se
sintam obrigados a fazer um ajustamento. Contudo, enquanto os números
mostrarem algum aumento, duvido que eles o façam. Custa-me
a acreditar que eles aceitem 1957 como a data inicial para "esta
geração", conforme proposto pelos membros Schroeder,
Klein e Suiter.
Apesar de tudo, eles ainda têm outras opções.
Poderiam reconhecer a evidência histórica que coloca
a distinção de Jerusalém vinte anos mais tarde
do que a data da Sociedade, 607 A.E.C.. Isto faria os Tempos dos
Gentios acabar (usando a interpretação dos 2.520 anos,
que eles adotam) por volta de 1934. Mas foi dada uma importância
tão grande a 1914 e, conforme foi mostrado, o esquema doutrinal
está de tal maneira ligado a essa data, que esta também
parece uma medida improvável.
Talvez a idéia de Albert Schroeder de aplicar a frase à
classe "ungida" (uma idéia que tem pairado à
volta da organização por muitos, muitos anos) seja
mais atraente. Há sempre mais pessoas (algumas muito jovens)
que em cada ano decidem pela primeira vez que são da classe
"ungida." Portanto isto daria ao ensino sobre "esta
geração" uma extensão de tempo quase ilimitada.
(Veja o Apêndice para mais informações.)
Uma coisa que posso dizer com convicção é que
pessoalmente acho incrível o modo de raciocinar dentro do
Corpo Governante. Parece-me trágico que uma profecia que
envolve datas possa ser proclamada ao mundo como algo sólido,
em que as pessoas podem e devem confiar, e sobre a qual podem basear
as suas esperanças, traçar os seus planos de vida
-- quando os mesmos que publicam isto sabem que dentro do seu próprio
corpo coletivo não existe uma unanimidade de convicção
genuína, firme, quanto à correção desse
ensino. Pode ser que quando analisada no contexto de todo o historial
da organização, de fixar e mudar datas, a atitude
deles se torne mais compreensível.
Talvez mais incrível para mim seja o fato de os membros
do Comitê do Presidente, Albert Schroeder, Karl Klein e Grant
Suiter, cerca de dois meses depois de terem apresentado a sua nova
idéia sobre "esta geração", incluírem
o ensino sobre o início da presença de Cristo em 1914
entre os ensinos decisivos para determinar se indivíduos
(incluindo membros do pessoal da sede) eram, ou não, culpados
de "apostasia" e consequentemente mereciam ser desassociados.
Eles fizeram isto sabendo que poucos meses antes eles próprios
tinham posto em dúvida a doutrina a respeito de "esta
geração," que era um corolário daquela,
e lhe estava associada. Mas isso é um assunto que será
tratado no próximo capítulo.
Notas
1 Este mesmo material também apareceu na Watchtower de 15
de outubro de 1969 [em português: A Sentinela de 15 de abril
de 1970, pp. 238, 239]. Os últimos índices das publicações
da Watch Tower, contudo, não o alistam debaixo do subtítulo
"1975," simplesmente ignorando-o apesar do seu forte enfoque
sobre aquela data.
2 É verdade que (na página 25) é usada a frase
menos específica "em meados dos anos setenta",
mas o ano 1975 já tinha sido apresentado como sendo uma data
Biblicamente marcada e essa data estava agora firmemente gravada
nas mentes de todas as Testemunhas de Jeová ao redor do mundo.
3 Citado de Mateus 24:36, 42, 44; Marcos 13:33; Atos 1:7.
4 Isto foi na sessão de 19 de fevereiro de 1975.
5 Veja a Watchtower de 1.º de maio de 1975 [em português:
A Sentinela de 15 de setembro de 1975, p. 552].
6 Veja a Watchtower de 1.º de outubro de 1978 [em português:
A Sentinela de 15 de janeiro de 1979, p. 32].
7 Dentre os membros do Corpo Governante, na época em discussão,
apenas Fred Franz (já falecido) tinha passado do adolescência
em 1914, tendo 21 anos de idade na altura. Quanto aos membros atuais,
George Gangas tinha 18, John Booth 12, Karl Klein e Carey Barber
tinham 9, Lyman Swingle 4, Albert Schroeder 3, Jack Barr 1, e Lloyd
Barry, Dan Sydlik, Milton Henschel, Ted Jaracz e Gerrit Loesch ainda
não eram nascidos.
8 A expressão "verdade atual" era popular no tempo
de Russell e Rutherford e era baseada numa tradução
deficiente de 2 Pedro 1:12. A Tradução do Novo Mundo
diz, mais corretamente, "a verdade que está presente
em vós."
9 Este não parece ter sido apenas um pensamento momentâneo
da parte do Presidente Knorr, pois o mesmo ponto de vista foi expresso
praticamente nas mesmas palavras por um dos seus associados mais
próximos, George Couch. Conhecendo os dois, parece provável
que Couch tenha adotado a opinião de Knorr do que o contrário.
10 O Comitê de Redação era então composto
por Lloyd Barry, Fred Franz, Raymond Franz, Karl Klein e Lyman Swingle.
11 Contrariamente àquilo que alguns alegam, o próprio
Corpo Governante nunca deu importância à data 1984
e, segundo me lembro, esta ocasião foi a única vez
em que a data foi sequer mencionada, e isto apenas a propósito
de rumores.
12 Mateus 24:29.
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