Encontrar uma ex-testemunha-de-jeová
já é fato raro, um ex-ancião, então,
quase um milagre. Mas como o evangelho é o poder de Deus,
esse milagre aconteceu. Trata-se da história do irmão
Willian. Ele foi ancião das Testemunhas de Jeová durante
quatorze anos, mas, desde 1998, desfruta da verdadeira liberdade
em Cristo. Hoje, seu maior prazer é ajudar outras vítimas
dessa seita, ensinando-lhes que Deus não é propriedade
da Torre de Vigia e que a vida não acaba para quem deixa
a organização. Seu trabalho resultou na publicação
recente do livro A verdade sobre as Testemunhas de Jeová.
Obra escrita em parceria com seu cunhado, Cid Miranda, também
ex-ancião. E
Defesa da Fé tem grande satisfação
de publicar a entrevista que segue.
Defesa da Fé – Basicamente, ser Testemunha de Jeová
é negar doutrinas bíblicas. A tarefa de reaprender
tudo novamente não é um desafio grande demais?
William do Vale Gadelha
Não são todas as doutrinas desse grupo que negam
as verdades cristãs, mas as que têm fundamento bíblico
são manipuladas pelos interesses da organização.
Por isso o desafio de aprender o que a Bíblia ensina é
grande, pois as testemunhas-de-jeová acham que já
sabem toda a verdade bíblica. Humanamente falando, é
tarefa muito difícil substituir os dogmas humanos da Torre
de Vigia pelo puro conhecimento da Palavra, mas “a Deus todas
as coisas são possíveis”.
Defesa da Fé – A história das Testemunhas
de Jeová é cercada de erros e enganos. Como elas lidam
com esse passado sombrio?
William
A história passada das profecias é constantemente
“filtrada”. A falsa profecia de que o fim do mundo viria
em 1914, por exemplo, foi claramente expressa nas publicações
da Torre de Vigia de 1879 até o início da Primeira
Guerra Mundial. Quando o fim do mundo não ocorreu, disseram
que o que fora predito foi o fim dos Tempos dos Gentios, realizado
de “modo invisível” nos céus. É
algo totalmente subjetivo e sem nenhum suporte bíblico. Mas
a absoluta maioria deles crê que isso é verdade e ignoram
que sua religião é responsável por uma das
maiores falsas profecias de todos os tempos.
Defesa da Fé – De todas as gafes históricas,
qual a que mais incomoda as Testemunhas de Jeová?
William
Eu poderia chamar de grande gafe histórica a mudança
relacionada com a “geração de 1914”. Durante
muitas décadas, livros e revistas afirmaram taxativamente
que o fim do mundo viria antes de a geração dos que
viveram em 1914 morressem. Em 1995, tiveram de abolir este ensino.
Alguns anciãos chegaram a comentar isso comigo. Foi como
se o fim do mundo tivesse sido adiado. Os adeptos que esperavam
não morrer ficaram muito decepcionados. Como se trata de
algo recente, mencionar esse fato é um grande incômodo
para as elas.
Defesa da Fé – Por que, mesmo diante disso,
elas insistem em ser a religião verdadeira?
William
Primeiro, porque a noção de todos esses erros é
permanentemente encoberta pela organização. A pesquisa
acerca deles é francamente desencorajada. Quando abordam
esses erros, o fazem de modo disfarçado, e dão a impressão
de que foi algo mínimo, atribuído a alguns adeptos
precipitados numa determinada época. A liderança da
organização nunca é responsabilizada, ficando
sempre acima de qualquer suspeita. Por um raciocínio estranho
e distorcido, dizem ser “a única religião da
terra aprovada por Deus, dirigida e orientada por Ele”. É
um marketing religioso. Porque se existe realmente “uma religião
verdadeira”, quem não gostaria de fazer parte dela?
Defesa da Fé – Uma coisa é fato, as testemunhas-de-jeová
são extremamente persuasivas em seu trabalho de casa em casa.
Que tipo de treinamento elas recebem?
William
Duas reuniões no meio da semana, a Escola do Ministério
Teocrático e a Reunião de Serviço, visam treinar
adeptos de todas as condições e idades para o trabalho
de casa em casa. Isto inclui formas de abordagem, como apresentar
os assuntos das revistas Sentinela e Despertai!, como explicar os
temas mais obscuros da doutrina e como rebater as críticas
mais comuns feitas à seita. Criam-se cenários de conversas
informais, da vida familiar e de locais de trabalho, além
de demonstrações de palestras típicas que ocorrem
nas portas. No entanto, nenhuma delas está preparada para
lidar com os questionamentos realmente bíblicos. São
proibidas de entrar em tal tipo de conversa. Até mesmo os
anciãos mais experientes não têm como explicar
seus dogmas sem fundamento bíblico. Se houvesse explicações
bíblicas, eu estaria lá até hoje.
Defesa da Fé – Na época, como um dos
líderes desse grupo, nunca teve dúvidas sobre a idoneidade
do Corpo Governante?
William
A transmissão dos dogmas da Torre de Vigia é muito
bem feita. Apesar disso, havia ensinos que não pareciam bem
explicados, e sempre, em todos esses anos, eu tive minhas dúvidas,
embora não falasse delas com ninguém. Uma delas era
sobre o ensino de que a volta de Cristo seria invisível.
Defesa da Fé – Quais são as estatísticas
mundiais sobre o crescimento das Testemunhas de Jeová?
William
Desde o final dos anos 90, vinha ocorrendo uma desaceleração
do crescimento, causado, talvez, pela desilusão da “geração
de 1914”. Até 2001, na América do Norte, Europa,
Japão e Austrália, houve estagnação
e até decréscimo. Eles tiraram muito proveito dos
ataques terroristas a Nova York, da guerra do Afeganistão
e do Iraque e passaram novamente a crescer naquelas regiões.
O crescimento tinha sido de 4,4 % em 1997 e caído para 1,7
% em 2001. Depois subiu para 2,8 % em 2002. O último relatório
traz um crescimento de 2,2 %. Creio que o “efeito catástrofe”
dos acontecimentos mundiais já está passando e o crescimento
pode cair mais nos próximos anos.
Defesa da Fé – Qual foi o estopim que resultou
na sua saída do grupo?
William
O fim da “geração de 1914” me serviu
de alerta, mostrou que o Corpo Governante não tinha orientação
divina. Se podia estar errado nisso, podia também estar errado
em outras coisas. Um dia, pela Internet, soube da existência
de Raymond Franz, ex-membro do Corpo Governante e ex-testemunha-de-jeová.
Pude então ler toda a história dele: a exposição
que faz dos erros de décadas e décadas. Aprofundei
minhas pesquisas e me choquei com a atitude irresponsável
da Torre de Vigia no passado, com respeito aos transplantes de órgãos,
às vacinas, ao uso médico do sangue, de como vidas
humanas se prejudicaram e se perderam. Entrei em contato com Raymond
Franz, já idoso, e ele nos autorizou a traduzir e distribuir
seu livro, Crise de consciência, no Brasil. Em seguida, pedi
nosso desligamento. O fato teve ampla repercussão em Fortaleza
e, depois, em todo o Brasil. Nos meses seguintes, outros adeptos
que entraram em contato conosco também se dissociaram, inclusive
anciãos e servos ministeriais (diáconos). Seis anos
se passaram desde então.
Defesa da Fé – Qual é o “preço”
para alguém que deixa essa organização religiosa?
William
Muito alto em muitas áreas. A perda imediata total das amizades
e a destruição quase total dos vínculos familiares.
Você se torna um “desconhecido” para aqueles a
quem antes chamava de “irmãos”, ganha a denominação
desprezível de “apóstata” e passa a ser
considerado como passível de destruição no
Armagedom, se não voltar “humilde e arrependido”
a sujeitar-se aos preceitos dos homens do Corpo Governante.
Defesa da Fé – Foi esse o seu caso?
William
Foi sim. Sou o mais velho de nove irmãos. Havia, ainda,
cunhados, cunhadas e sobrinhos, mas maioria deles deixou a religião
na mesma ocasião em que Cid (meu cunhado) e eu saímos.
Felizmente, não sofremos tanto quanto os outros. Um irmão
e duas irmãs continuam lá com suas famílias.
Só falam comigo o estritamente indispensável e, às
vezes, nem isso. Mas o saldo foi positivo. A maior parte da família
foi preservada, e isso é motivo de alegria. O Cid também
perdeu boa parte de seus parentes. Mas temos motivos de ter esperança
com relação a estes entes queridos.
Defesa da Fé – Fala-se muito em controle mental
das seitas sobre seus adeptos. Como o senhor vê esta questão?
William
Vivemos em plena época de cultos e seitas e o controle mental
é um fato. E torna-se fato bem real entre as Testemunhas
de Jeová. Os discursos dos anciãos, os artigos da
Sentinela e da Despertai! Repetem, de modo insistente, a posição
do Corpo Governante como “escravo fiel e discreto” inquestionável.
Tudo isso resulta em amortecer a capacidade de raciocínio
das pessoas, deixá-las receptivas para qualquer coisa que
se queira, desde que parta da liderança da religião.
Essa é uma das formas mais reais que existe de escravidão.
Que a leitura, a divulgação, a escrita e a Internet
sejam plenamente usadas como veículos da libertação
das mentes, sejam quais forem as seitas a que estejam presas!
Defesa da Fé – O que a igreja pode fazer para
alcançar os adeptos esse grupo, que poderiam muito bem, com
as demais seitas, ser considerados como parte dos “povos não-alcançados”?
William
Já foi dito que as testemunhas-de-jeová vão
às casas das pessoas tentar “convertê-las”.
Seria muito vantajoso aproveitar suas visitas para lhes transmitir
a verdadeira boa-nova, que tem a ver com Jesus e com o benefício
redentor do seu sangue derramado para a libertação
da humanidade. Qualquer um que queira ajudar essas pessoas deve
preparar-se com base na farta literatura hoje disponível.
Abordá-las com amor (que elas acham que as outras religiões
não têm), explicar-lhes de modo calmo e paciente, com
a Bíblia na mão, o que realmente Deus tem para elas.
Fico especialmente jubilante quando recebo notícias de ex-Testemunhas
que dizem que acharam abrigo espiritual em alguma igreja cristã.
Seu zelo passa a ser bem aproveitado e não ficam como ovelhas
desgarradas, situação em que maldosamente a Torre
de Vigia se alegra.
William do Vale Gadelha: um ex-ancião
|