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A “Desvirgindade” de Maria

Por   /  3 de outubro de 2020  /  Sem comentários

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A IGREJA DE ROMA assegura que a santa Maria, mãe de Jesus, conservou-se virgem até a sua morte:

“Maria permaneceu Virgem concebendo seu Filho, Virgem ao dá-lo à luz, Virgem ao carregá-lo, Virgem ao alimentá-lo de seu seio, Virgem sempre” (C.I.C. p. 143, # 510).

Contestação – Antes do nascimento de Jesus, Maria e José não mantiveram relações íntimas. Nascido Jesus, e passado o período pós-parto, o casal passou a ter uma vida normal de marido e mulher e teve os seguintes filhos: Tiago, José, Simão, Judas e, no mínimo, duas filhas. Esta opinião está alicerçada nos textos abaixo:

“Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Não estão entre nós todas as suas irmãs?” (Mateus 13.55-56; Marcos 6.3).

Corroborando essa afirmação, lemos no mesmo livro de São Mateus:

“Estando Maria, sua mãe (mãe de Jesus), desposada com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. José, seu marido, sendo justo e não querendo difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Projetando ele isso, em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. José, despertando do sonho, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher. Mas não a conheceu até que ela deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus”  (Mt 1.18-20, 24-25).

A expressão “ATÉ QUE” – “não a conheceu até que ela deu à luz um filho” – indica um limite de tempo. Poderíamos traduzir assim: José não manteve relações íntimas com Maria enquanto ela estava grávida de Jesus, aliás, em cumprimento à profecia: “a virgem conceberá e dará à luz um filho …” (Isaías 7.14). Isto é, ATÉ o nascimento de Jesus ela manteve-se virgem. Os romanistas interpretam o texto de forma diferente. Dizem que a abstinência de José manteve-se depois do parto de Maria.  Para mim, a expressão é clara. Veja o exemplo de uma ordem de uma mãe ao filho: “Você deve ficar em casa até que eu volte”. Então, enquanto a mãe não voltar, o filho ficará em casa.  A proibição alcança o tempo em que  aquela mãe estiver fora de casa. Depois do seu retorno, o filho poderá sair de casa. Comparativamente, enquanto não nasceu Jesus, José respeitou a virgindade de sua mulher. Jesus realmente nasceu de uma virgem, conforme a Escritura, mas nada prova que Maria tenha continuado virgem.

Lembremo-nos, finalmente, de que Maria “deu à luz a seu filho primogênito…” (Lucas 2.7a). Primogênito, segundo o Dicionário Aurélio, diz-se “daquele que foi gerado antes dos outros, que é o filho mais velho“. Jesus foi, portanto, o filho mais velho de José e Maria, conforme Mateus 13.55-56.  Já na relação Deus Pai e Deus Filho, Jesus é chamado de unigênito, único, tal como definido em João 3.16. São Mateus não iria usar uma expressão que causasse alguma dúvida. Se Jesus fosse o único filho, Mateus usaria certamente a expressão UNIGÊNITO, que significa filho único, conforme diz o Dicionário Aurélio.

A nossa análise terá como base o seguinte registro: “José, ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher. Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus” (Mateus 1.24-25, Bíblia [católica] de Jerusalém).

 

A passagem acima diz claramente que José, atendendo ao anjo, recebeu em sua casa a sua esposa Maria, e foram viver como marido e mulher.  Está dito que Maria foi a mulher de José; que José não conheceu a sua esposa enquanto ela estava grávida de Jesus; que Jesus nasceu de uma virgem, porque José somente conheceu sua mulher – ou seja, teve relações com ela – depois do nascimento de Jesus.

 

Católicos há que contestam o que está escrito na Bíblia, e dizem que “nas Sagradas Escrituras a expressão “até que” é empregada muitas vezes para indicar um tempo indeterminado, e não para marcar algo que ainda não aconteceu”.   Não iremos nos estender na refutação dessa tese porque as duas bíblias de início citadas, aprovadas pelo catolicismo, interpretam corretamente referido versículo, como a seguir:

“Mas [José] não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho, e ele o chamou com o nome de Jesus”:  “O texto não considera o período ulterior [depois do parto] e por si não afirma a virgindade perpétua de Maria, mas o resto do Evangelho, bem como a tradição da Igreja, a supõem” (Comentário da Bíblia [católica] de Jerusalém).

Em outras palavras, os exegetas católicos, que trabalharam na edição da referida Bíblia, reconheceram o óbvio, ou seja,  que até o nascimento de Jesus,  José e Maria não se “conheceram”.  Todavia, dizem bem quando entendem que a Tradição “supõe”, isto é, o dogma da perpétua virgindade de Maria é uma suposição, não uma realidade bíblica.  O comentário acima coloca por terra argumentos outros não oficiais, segundo os quais José não conheceu sua esposa nem antes nem depois do nascimento de Jesus.

Outro comentário: Enquanto (ou até que): esta palavra portuguesa traduz o latim donec e o grego heos ou, que por sua vez estão calcados sobre a expressão hebraica ad ki que se refere ao tempo anterior a esse limite sem nada dizer do tempo posterior, cf. Gn 8.7;Sl 109.1; Mt 12.20; 1 Tm 4.13. A tradução exata seria: “sem que ele a tivesse conhecido, deu à luz…”, pois a nossa expressão “sem que” tem o mesmo valor”  (Bíblia [católica]  Sagrada).

O que a Bíblia acima está dizendo em seus comentários é que o “ATÉ”  não foi  ALÉM  do nascimento de Jesus, ou seja, enquanto grávida e até dar à luz não houve “conhecimento” mútuo do casal.

Concordando com as Bíblias Católicas, a Bíblia Apologética, do ICP, assim esclarece: “Veja a preposição “até” em qualquer concordância bíblica e ficará surpreso a respeito do seu significado. Observe alguns exemplos: Levíticos 11.24-25: “E por estes sereis imundos: qualquer que tocar  os seus cadáveres, imundo será ATÉ à tarde”. E depois da tarde, eles permaneceriam imundos?  Vejamos agora Apocalipse 20.3: “E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, ATÉ que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco tempo”. Assim, a relação existente antes do nascimento de Jesus se modificou [como se modificou a situação de Satanás após os mil anos de prisão], não a conheceu até que ela deu à luz. Essa passagem declara que, depois do nascimento de Jesus, José e Maria tiveram uma vida conjugal normal, como qualquer outro casal.  Nenhum autor do Novo Testamento ensina a doutrina da virgindade perpétua de Maria. Se se tratasse de uma doutrina ou ensinamento vital ou essencial como requer o catolicismo, certamente Paulo e os outros discípulos teriam mencionado a respeito. Assim resta ao catolicismo romano apegar-se à tradição, porque a Bíblia não aceita essa teoria (Colossenses  2.8)”.

A expressão “não coabitou com Maria ATÉ QUE nascesse Jesus” está muito clara. Ligada à fala do anjo que disse a José que RECEBESSE Maria, sua mulher, ficou entendido que passado o período da gravidez e do descanso depois do parto,  José e Maria, marido e mulher, continuariam uma vida a dois como todos os casais do mundo. Assim aconteceu, pois  tiveram muitos filhos, conforme está em Mateus 13.55-56.   José e Maria constituíram um casal muito feliz e foram abençoados por Deus. E por ter filhos, por amar o seu esposo, por ter sido mãe, Maria não pecou nem perdeu a sua santidade. Maternidade e santidade podem caminhar juntas, sem que uma prejudique a outra.  Sexo no casamento não é pecado.

Houve ordem divina para que José não “conhecesse” sua mulher?

Se não havia a intenção formal nem de José nem de Maria, de   viverem  sem relações íntimas,  embora residissem sob o mesmo teto,  teria havido alguma ordem divina nesse sentido?  O leitor deverá ler cuidadosamente  Mateus 1.18-25 e Lucas 1.26-38 para verificar a inexistência de qualquer  tipo de impedimento.  A resposta de Maria ao anjo – “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?” (Lc 1.34) –  pode ser interpretada como um voto de virgindade?   A Bíblia [católica] de Jerusalém, em seus comentários, responde: “A “virgem” Maria é apenas noiva (v.27) e não tem relações conjugais  (sentido semítico de “conhecer”, cf. Gn 4.1; etc.). Esse fato, que parece opor-se ao anúncio dos vv. 31-33, induz à explicação do v. 35. NADA NO TEXTO IMPÔE A IDÉIA DE UM VOTO DE VIRGINDADE” (realce acrescentado).

Autor: Pr. Airton Evangelista da Costa

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  • Publicado: 3 semanas atrás em 3 de outubro de 2020
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  • Última modificação: outubro 3, 2020 @ 11:24 am
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