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As guerras e a ética cristã

Por   /  9 de julho de 2019  /  Sem comentários

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Geisler aborda o tema de forma bastante ampla, levando em consideração o lado bíblico e também o lado social, dividindo em três pontos básicos sua argumentação. Sendo elas: Ativismo, Pacifismo e Seletivismo. Faremos agora uma breve síntese do pensamento de Geisler.

1- O ATIVISMO: É SEMPRE CERTO PARTICIPAR DA GUERRA

O argumento do ativismo de que o cristão é obrigado, pelo seu dever de obedecer ao seu governo, de participar de todas as guerras tem dois tipos diferentes de argumentos: o bíblico e o filosófico ou social.

  1. O Argumento Bíblico: “O Governo É Ordenado Por Deus”

As Escrituras parecem ser enfáticas quanto a este aspecto. O governo é de Deus. Seja no âmbito religioso, seja no âmbito civil, Deus é o Deus da ordem e não do caos. O Novo Testamento confirma o conceito do Antigo Testamento, de que Deus ordenou o governo. Jesus é citado dizendo que o homem deve dar, pois, “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22:21), que a autoridade civil foi dada por Deus foi ainda mais reconhecido por Jesus, diante de Pilatos, quando disse: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te tosse dada” (Jo 19:11). Tito é exortado a respeito dos cretenses: “Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes…” (Pe 2:13,14). A passagem mais extensa do Novo Testamento sobre o relacionamento entre o cristão e o governo acha-se em Romanos 13:1-7. “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Visto que a autoridade é ministro de Deus para o teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.” (vs 1 e 2 e 4). Seguir-se-ia disto, segundo os ativistas bíblicos, que a pessoa deve responder à chamada do seu governo para ir à Guerra, porque Deus deu autoridade da espada às autoridades governantes.

  1. O Argumento Filosófico: “O Governo é o Guardião do Homem”

O ativismo não é apoiado meramente com os dados bíblicos. Um dos argumentos mais enfáticos já escritos em prol desta posição veio da pena de Platão. O cenário é a prisão onde Sócrates aguarda sua morte, tendo sido acusado de impiedade e sentenciado a beber o cálice de veneno, Sócrates é conclamado a escapar de fugir de pena de morte. Na resposta de Sócrates, cinco razoes são dadas para obedecer a um governo injusto, mesmo até ao ponto da morte.

1- O Governo é o pai do Homem – a pessoa não deve desobedecer até mesmo a um governo injusto. “Primeiro, porque ao desobedecer a ele, está desobedecendo aos seus pais.” Com isto, Sócrates queria dizer que foi sob o patrocínio daquele governo que o individuo foi trazido ao mundo.

2- O Governo é o Educador do Homem – Sócrates oferece outra razão para obediência ao seu governo. “Em segundo lugar, porque é o autor da sua educação.” A implicação aqui é que a própria educação que faz com que uma pessoa seja o que é lhe foi dada pelo seu governo.

3- O Governado Comprometeu-se a Obedecer ao Seu Governo – a terceira razão que Platão dá para a obediência ao governo é que “fez um acordo com ele de que obedecerá devidamente aos seus mandamentos.” Ou seja: o consentimento do governado para fazer daquele governo o governo dele, ao comprometer-se à fidelidade a ele, obriga-o a obedecer às suas leis ou sofrer as conseqüências. Pelo próprio fato de que um homem faz de um determinado país seu país, por isso mesmo fez um acordo tácito de ser obediente aos seus mandamentos. Escreveu Platão: “o castigo deve ser suportado em silencio; e se ela nos levar a ferida ou à morte na batalha, para lá iremos conforme é justo” porque se alguém vai aceitar os privilégios da educação e da proteção do seu governo, então concordou, implicitamente, que aceitara as responsabilidades e as penalidades do seu governo, no sentido de obedecer às suas leis e até mesmo ir à guerra por ela.

4- O Governado Não Está Compelido a Permanecer Sob Seu Governo – Platão usa para apóias sua tese de que não se deve desobedecer ao seu governo. “Qualquer pessoa que não gosta dele nem da cidade, pode ir para onde quiser…”, “fazer apenas o que um escravo miserável faria, fugindo e virando as costas aos entendimentos e contratos feitos como cidadão”. Noutras palavras, se alguém não estiver disposto a obedecer à sua pátria, deve achar outra pátria à qual possa obedecer.

5- Sem Governo Haveria Caos Social – outra razão porque não deve desobedecer ao seu governo está subentendida na pergunta de Platão: “e quem se importaria com um Estado que não tivesse leis?” uma lei injusta é má, mas nenhuma lei é ainda pior.

2- O PACIFISMO: NUNCA É CERTO PARTICIPAR DA GUERRA

Há muitas razões porque o pacifismo rejeita os argumentos dos ativistas. As razões dadas pelo pacifista podem servir tanto como uma crítica do ativismo total, quanto com a outra metade do diálogo sobre a guerra que força o cristão a examinar tanto sua bíblia quanto sua consciência para uma conclusão sobre um problema inquietante. Os argumentos em prol do pacifismo podem ser divididos em dois grupos básicos, o bíblico e o social.

A- Os Argumentos Bíblicos: “A Guerra Sempre é Errada”

Há muitos aspectos no argumento do pacifista cristão contra todas as guerras, mas há várias premissas bíblicas por detrás de todos eles. Uma destas premissas esta declarada na injunção bíblica: “não matarás,” (Ex 20:13) e a outra nas palavras de Jesus: “não resistais ao perverso” (Mt 5:39).

1- Matar Sempre é Errado – no coração do pacifismo há a convicção de que tirar a vida intencionalmente, especialmente na guerra, é básica e radicalmente errado. A proibição bíblica: “não matarás,” inclui a guerra. Visto que esta conclusão, à primeira vista, é contraria aos muitos casos nas Escrituras que, segundo parece, parecem ordenar a guerra, os pacifistas cristãos devem oferecer uma explicação de o porquê a bíblia dá a impressão de, às vezes, ordenar a guerra. Várias respostas têm sido dadas por diferentes pacifistas. Primeiramente, as guerras do Antigo Testamento, em que se representa Deus “ordenando” a guerra, não foram realmente ordenadas por Deus de modo algum. Representam um estado mais bárbaro da humanidade em que as guerras eram justificadas ao ligar a elas sanções divinas. Outra explicação é que estas guerras eram sem igual, porque Israel estava agindo com instrumento teocrático nas mãos de Deus, conforme evidenciado pelos milagres especiais que Deus operava para ganha-las. Finalmente, às vezes é argumentado que a guerra no Antigo Testamento não era a “perfeita” vontade de Deus, mas sim à vontade “permissiva”. Ou seja: retrata-se a Deus “ordenando” Samuel a ungir Saul rei, ainda que Deus não lhe tivesse escolhido Saul para rei, mas sim a Davi (I Sm 10:1).

O Antigo Testamento ensina claramente que a pessoa deve amar seus inimigos (Lv 19:18,34), e Jesus reafirmou este ensino, dizendo: “amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem…” (Mt 5:44). A guerra baseia-se no ódio, e é errada. Tirar a vida de outras pessoas é contrário ao principio do amor e é, portanto, basicamente não-cristão.

2- Resistir ao Mal, à Força, é Errado – em conexão estreita com a primeira premissa básica do pacifismo, do que é errado matar, há outra, diz: o mal nunca deve ser resistido com força física, mas com a força espiritual do amor. Jesus não disse: “não resistais o perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra” (Mt 5:39)?, Cristo não ensinou também nesta passagem: “se alguém te obrigar a andar um milha, vai com ele duas” (vs 41)? O cristão não deve retaliar nem pagar o mal com o mal.

3- A Ética Pública e Particular é a Mesma – outra premissa básica do pacifismo é que não há distinção real entre aquilo que se deve fazer como cidadão particular e aquilo que se deve fazer com oficial público. Aquilo que é errado para uma pessoa fazer na sua própria vizinhança (matar), é errado em qualquer outra vizinhança do mundo.

B- Os Argumentos sociais: “A Guerra é Sempre Má”

Há fortes argumentos sociais contra a guerra. Não é a melhor maneira de solucionar disputas humanas. Um rio de sangue humano tem sido deixado no séqüito das guerras, e no curso da história. Males de todos os tipos resultam da guerra: a fome, a crueldade, as pessoas e a morte.

1- A Guerra é Baseada no Mal da Ganância – já nos tempos de republica de Platão, pessoas que pensavam reconheciam que o desejo pelo luxo era a base da guerra. Escreveu: “não precisamos dizer ainda se a guerra faz o bem ou o mal, mas somente que descobrimos sua origem nos desejos (pelas riquezas) que são a fonte mais frutífera dos males, tanto para os indivíduos quanto para os estados”.

2- A Guerra Resulta Muitos Males – os muitos males da guerra são bem-conhecidos, e não é necessário alongar-nos sobre o assunto aqui. O concomitante da guerra é a morte e a destruição. A fome e a peste frequentemente resultam da guerra também. Talvez não haja maneira de estimar a tristeza, a dor, e até mesmo a crueldade e a tortura, usualmente, vinculadas com a guerra.

3- A Guerra Cria Mais Guerra – um dos piores resultados da guerra é que cria mais guerra. Nenhuma guerra, até o presente, realmente deixou o mundo livre de guerras. Inimigos subjugados frequentemente fazem um levante para retaliar contra seus conquistadores.

3- O SELETIVISMO: “É CERTO PARTICIPAR DE ALGUMAS GUERRAS”

A partir da insatisfação com as soluções “fáceis” de declarar justas todas as guerras, ou nenhuma guerra justificável, está emergindo um número crescente de partidários do seletivismo, que sustenta que algumas guerras são justificáveis, e outras não. É este ponto de vista que nos parece ser a alternativa mais satisfatória para o cristão.

A- Uma Base Bíblica para o Seletivismo

Tanto o ativismo quanto o pacifismo reivindicam o apoio da Escritura. O seletivismo é apenas uma terceira maneira de interpretar os mesmos dados bíblicos? Respondendo, sugerimos que tanto o ativismo quanto o pacifismo tem razão (pelo menos parcialmente) e que o sentido em que ambos têm razão é a essência do seletivismo. Noutras palavras, o seletivismo é uma síntese do ativismo e do pacifismo. A verdade do seletivismo é que algumas guerras são justas e que os cristãos devem lutar nestas. O seletivismo, portanto, firma-se na posição de que a pessoa deve participar somente de uma guerra justa.

1- Algumas Guerras São Injustas – a rejeição do ativismo total é apoiada pelas Escrituras. A bíblia, pois, ensina que nem sempre é certo obedecer ao seu governo em tudo quanto ordena, e especialmente quando seus mandamentos contradizem as leis espirituais superiores de Deus. Há claros exemplos disto na bíblia. Os três jovens hebreus desobedeceram ao mandamento do Rei no sentido de adorar um ídolo (Dn. 6). Os apóstolos desobedeceram às ordens no sentido de não pregarem o Evangelho de Cristo (Atos 4 e 5). E, num caso muito claro de desobediência, divinamente aprovada, à lei civil, as parteiras hebréias, no Egito, desobedeceram ao mandamento no sentido de matar todos os nenês do sexo masculino que nascessem. Está escrito: “as parteiras, porém, temeram a Deus, e não fizeram como lhes ordenara o rei do Egito, antes deixaram viver os meninos… E Deus fez bem as parteiras… e o povo aumentou e se tornou muito forte.” Além disto, “porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes constituiu família.” (Ex 1:17, 19-21). Esta passagem ensina claramente que é errado tirar a vida de um ser humano, ainda que o governo “ordenado por Deus” o determine.

2- Algumas Guerras São Justas – há uma citação um pouco mais negligenciada de Jesus que talvez dê apoio à alegação de que o individuo tem o direito de brandir uma espada em defesa própria. É bem conhecido que Jesus admoestou seus discípulos a não propagarem o Evangelho com a espada (Mt 5:39). Mas às vezes é olvidado que Jesus mandou seus discípulos comprarem uma espada, (para sua própria proteção). Disse-lhes: “o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma” (Lucas 23:36). Visto que as espadas eram proibidas por Jesus, ou para o propósito de apoiar a pregação do Evangelho ou para a defesa contra ser perseguido por causa do Evangelho (Jo. 18:11). Se as espadas eram excluídas por Jesus por motivos religiosos, podemos assumir que eram incluídas por motivos civis. Ou seja: as espadas a defesa civil da pessoa. Aqui parece haver a sanção de Jesus ao uso justificável de um instrumento de morte na defesa contra um agressor injusto. Ou seja: Jesus ordenou o uso da espada com meio da auto-defesa.

B- A Base Moral para o Seletivismo

O seletivismo pode ser defendido em outras bases, além das bíblicas. Há fortes argumentos morais que também podem ser oferecidas em seu favor. Duas de tais razões morais para o seletivismo agora são oferecidas.

1- Tanto o Pacifismo quanto o Ativismo São Fugas Morais – sustentar, ou o pacifismo completo, ou o ativismo total, é a saída moral fácil de uma posição ética difícil. É muito fácil para alguém deixar sua pátria decidir por ele que todas as guerras são justas. Isso absolve o cidadão individual de qualquer luta para decidir se a guerra para a qual esta sendo convocado é justa ou injusta. Realmente não importa, porque a obediência ao governo sempre é certa: o governo é responsável pela guerra. O soldado não está agindo como indivíduo, mas, sim, como oficial do estado. O que faz enquanto está “fardado” não é sua responsabilidade ética. Assim, é a maneira eticamente fácil do ativismo de resolver a responsabilidade moral de fazer aquilo que é moralmente certo, independentemente daquilo que os governantes mandam.

2- O Mal Deve Ser Resistido – outra falácia no pacifismo é a premissa de que o mal não deve ser resistido à força. Pelo contrario, é moralmente injustificável não resistir ao mal. Permitir um assassinato quando a pessoa poderia tê-lo impedido, é errado. Deixar acontecer um estupro que a pessoa poderia ter evitado é um mal. Observar um ato de crueldade a uma criança sem procurar intervir, é moralmente indesculpável. Em síntese, não resistir ao mal é um pecado de omissão, os pecados de omissão podem ser tão maus quanto os pecados de comissão.

Fonte: Revista Defesa da Fé.

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