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Culto aos anjos

Por   /  1 de outubro de 2020  /  Sem comentários

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CONHEÇA A GÊNESE DA ANGELOLATRIA E A VERDADEIRA FUNÇÃO DOS ANJOS

Nos últimos anos, os anjos se infiltraram fortemente na cultura popular. Isso se deve, obviamente, à forte onda do movimento Nova Era, que se ergueu no final do século 20.

Em 1993, quando os ensinos novaerenses estavam em alta, a re­vista Newsweek chegou a colocar em destaque em uma de suas edições uma matéria intitulada: “Anjos estão aparecendo em todos os lugares da América”. Essa matéria foi um marco da angelomania que tomava conta dos Estados Unidos na época. Na re­portagem, pessoas de todas as par­tes do país garantiam ver constante­mente anjos, conversar com eles e até pô-los em contato com outras pessoas. Era o auge da febre dos anjos.

Com essa onda, a Nova Era passou a popularizar a concepção de que a ideia do Deus cristão estava falida. Para eles, o Deus dos cristãos era duro e antipático, en­quanto os anjos eram dóceis e sim­páticos. Assim, as pessoas passaram a conversar com seus “anjos da guarda”, a dirigir-lhes lacrimosas orações e a atribuir qualquer sucesso na vida a esses seres, e não mais à miseri­córdia divina.

A escritora norte-americana Sophy Burnham, adepta da Nova Era, foi uma das fomentadoras dessa substituição de Deus pelos anjos na mente das pesso­as. Em seu livro A book of angels, ela diz que a corrente popularidade dos anjos se deve ao fato de “termos cria­do este conceito de Deus como puni­tivo, judicioso e ciumento, enquanto os anjos nunca o são.

Eles são com­pletamente compassivos.” Em entrevista à revista Time nos anos 90, Burnham afir­mou ainda que “para aqueles que se sentem sufocados facilmente por Deus e suas regras, os anjos são a conces­são fácil, a ausência de julgamento; são todos fofos e suspiros. E estão dispo­níveis a todos, como aspirina”.

BATALHA ESPIRITUAL

Essa febre, infelizmente, acabou atingindo também as igrejas. O escri­tor evangélico Ron Rhodes acredita que os primeiros indícios da angelomania no meio evangélico surgiram após o sucesso, nos anos 70, do livro Anjos: agentes secretos de Deus, de Billy Graham. Não que o livro do famoso evangelista trouxesse heresias em seu bojo, mas, nas palavras de Rhodes, “muitos rece­beram um impactante direcio­namento para esse fascinante assunto pela lei­tura do livro de Graham.”

Segundo Rho­des, um dos mais fortes incentivadores da moda dos anjos no meio cristão foi, na verdade, o mega best-seller de ficção Este mundo tenebroso, de Frank Peretti. Basta lembrar a exacer­bação em torno do tema batalha espi­ritual após o sucesso do livro. Seminá­rios e mais seminários eram feitos so­bre o assunto, e muitos deles foram os grandes criadores de modismos e con­ceitos absurdos sobre a vida cristã e o mundo espiritual.

Especialmente no meio pentecostal, os anjos passaram a ganhar uma notoriedade que nunca deveriam ter. A doutrina bíblica sobre os anjos, que é esposada pelas igrejas pentecostais tradicionais, como a Assembleia de Deus, é veementemente contra essa relevância bizarra que se tem dado aos seres angelicais. No entanto, influen­ciados por novas igrejas (que por ain­da não terem se cristalizado convivem, na sua maioria, com uma teologia ine­xata, sempre a caminho), muitos cren­tes acabam tomando-se angelomaníacos. São aqueles que veem anjos a todo instante e não fazem nada sem a ori­entação angelical. Muitos afirmam ter audiências diárias com os arcanjos Gabriel ou Miguel (sic).

A exacerbação da ideia de bata­lha espiritual é um dos modismos neopentecostais que promoveram os anjos a uma posição acima do normal. Essa distorção teológica é na verdade um retrocesso, pois lança as igrejas de volta à teologia medieval anterior à Re­forma Protestante.

A Reforma Protestante foi um dos grandes catalisadores do fim da supers­tição da Idade Média, implementado por um catolicismo cada vez mais de­cadente. O mundo medieval era cheio de fantasmas, duendes, gnomos, de­mônios, anjos, santos, um mundo men­talmente carregado. Nesse mundo, Cristo era fraco, os demônios eram fortes e os anjos e santos importantes. Veio, então, a Reforma e centralizou tudo na cruz de Cristo, que representa a vitória para todo o que crê e serve a Deus. Infelizmente, muitas igrejas pa­recem querer reeditar esse hostil mun­do cósmico através de uma má inter­pretação do tema batalha espiritual.

O PERFIL DOS ANGELÓLATRAS

O apóstolo Paulo, ao advertir os cristãos em Colossos sobre os falsos ensinamentos, definiu bem o perfil dos angelólatras: “E digo isto para que nin­guém vos engane com palavras persuasivas (…) Ninguém vos domine a seu belprazer, com pretexto de humil­dade e culto dos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em au­mento de Deus”, Cl 2.4,18-19.

Paulo afirma no texto supracita­do que os falsos mestres ensinavam a necessidade de reverenciar e adorar os anjos, pois, segundo eles, os seres angelicais funcionariam como uma es­pécie de mediadores na comunhão do crente com Deus. O apóstolo rebate veementemente isso, lembrando que invocar anjos é fazer com que estes tomem o lugar de Jesus, que é o único mediador entre Deus e os homens e, por isso, a única e suficiente cabeça da Igreja (v 9).

Paulo também destaca que esses falsos mestres posam de humildes e santos, por causa dessa conversa de anjos, quando, muito pelo contrário, encontram-se “inchados na sua carnal compreensão”. Ainda hoje, os angelólatras se apresentam como pes­soas avivadas, espirituais, santas, hu­mildes, mas na verdade estão, como afirmou o apóstolo, embriagados por uma compreensão carnal.

Essa história de ver e conversar com anjos todo dia e o dia todo, se prostrar diante deles, ter audiências com arcanjos, ser secretariado por “Gabriel” ou “Miguel” e outras coisas do tipo não passa de uma grande toli­ce e blasfêmia. Sim, blasfêmia, porque valorizar mais a presença de anjos do que a do próprio Deus, se prostrar di­ante da criatura e não do Criador, e não poucas vezes atribuir curas, mila­gres e libertações não a Deus, mas às criaturas angelicais, é deixar de adorar a Deus e colocar os anjos no centro do culto.

A coisa está tão cimentada que, em muitas reuniões, lembrar que Deus está presente no ambiente de adora­ção não tem mais o menor significa­do, enquanto um simples “Há um anjo passeando neste recinto” é o suficien­te para que o povo se arrepie, chore e celebre. O reflexo também se vê nos hinos, onde quem cura, batiza no Es­pírito Santo e transforma vidas não é mais Deus, mas os anjos. “Quer ser curado? Receba o toque do anjo! Quer ser batizado? Deixa o anjo te tocar! Quer ser transformado? Dê lugar ao anjo de Deus na sua vida!” Isso é abo­minável.

A VERDADE SOBRE OS ANJOS

A maioria dessas convicções equivocadas sobre anjos se deve, sem dúvida, à ignorância bíblica. Para es­clarecer as confusões mais recorren­tes, destaco pelo menos sete clarificações, feitas à luz das Sagradas Es­crituras.

Em primeiro lugar, nem todos os anjos são bons. Paulo, escrevendo so­bre os falsos apóstolos aos cristãos em Corinto, afirma: “Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cris­to. E não é maravilha, porque o pró­prio Satanás se transfigura em anjo de luz”, 2Co 11.14. Não é à toa que o apóstolo destacou, entre os dons espi­rituais que a Igreja deve manifestar, o dom de discernir espíritos (1 Co 12.10). O demônio pode manifestar-se de for­ma diversa da esperada para confun­dir até mesmo os filhos de Deus. Logo, só porque alguém teve aparentemen­te uma experiência positiva com um ser espiritual não significa que este seja bom. Exatamente por isso somos cha­mados para testar, classificar e pen­rar experiências (1 Ts 5.21).

Em segundo lugar, grandes expe­riências espirituais podem ser mal in­terpretadas se não houver solidez dou­trinária. Às vezes a experiência é sa­dia, mas a forma como reagimos a ela não é. A experiência do apóstolo João em Apocalipse 22.8-9 é um grande exemplo: “E eu, João, sou aquele que vi e ouvi estas coisas. E, havendo-as ouvido e visto, prostrei-me aos pés do anjo que mas mostrava para o adorar. E disse-me: Olha, não faças tal, por­que eu sou conservo teu e de teus ir­mãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus”.

Esse episódio ocorrido na Ilha de Patmos nos mostra que experiências espirituais podem ser esmagadora­mente poderosas ao ponto de, se não tivermos uma referência sólida (a Pa­lavra de Deus) para analisá-las, po­dermos interpretá-las erroneamente. Se João, o apóstolo, tão prudente, como sua história e epístolas compro­vam, por pouco foi desviado, imagi­ne um cristão sem firmeza bíblica. Sem orientação sadia, pode-se valorizar tanto uma experiência espiritual ao ponto de se desbancar para meninices e destas para heresias.

Em terceiro lugar, nunca as nos­sas experiências devem ser colocadas acima da autoridade da Palavra de Deus. Este é um desdobramento do ponto anterior. O que está em realce é que minhas experiências não ser­vem como critério para estabelecer regras para a vida espiritual. Nossas regras de fé e prática estão exaradas indelevelmente nas Sagradas Escrituras.

Em quarto lugar, não devemos aceitar de nenhum anjo um “evange­lho ” que seja contrário à inspiração da Palavra de Deus. Paulo repreen­deu os gálatas, dizendo: “Maravilho- me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema”, Gl 1.6-8.

Os santos anjos de Deus não têm como função iniciar ou promover no­vas religiões ou conceder-nos reve­lações que contrariem as Sagradas Es­crituras (Sl 103.20 e Ap 22.9). Apesar disso, infelizmente, o que mais se tem é religiões fundadas a partir de “re­velações” de seres “angelicais”. Joseph Smith, o fundador do mormonismo, disse que um anjo chama­do Moroni entregou-lhe placas de ouro contendo o Livro de Mórmon. Maomé reivindicou ter recebido diretamente do anjo Gabriel as revela­ções contendo o Alcorão.

Outras religiões que envolvem mensageiros “angelicais” são a Igreja de Nova Jerusalém, fundada por Emmanuel Swendenborg; a antroposofia, fundada por Rudolf Steiner; a Comunidade de Realização Pessoal, fundada por Paramahansa Yogananda; e a Unity School of Christianity, fun­dada por Charles e Myrtle Fillmore.

Em quinto lugar, anjos não são objeto da oração. Só a Deus devem ser dirigidas as nossas preces (Mt 6.9). Os anjos apenas são usados por Deus para concretizar o propósito divino, respondendo às orações dos crentes (At 12.5-10). Essa história de pedir ori­entação a anjos ou invocá-los é here­sia.

Em sexto lugar, anjos não possu­em o corpo de pessoas, como fazem os demônios. Infelizmente, há pessoas que pensam que quando um crente fala em línguas estranhas, é um anjo que está usando seus lábios para emi­tir aquela linguagem espiritual, por­que a Bíblia fala de “língua dos an­jos” (1Co 13.1). A Bíblia é clara: quem fala em línguas estranhas não é um anjo possuindo a pessoa, nem o pró­prio Deus na pessoa. É a própria pes­soa. É o espírito do homem que fala em mistérios com Deus através da ação do Espírito Santo (At 2.4 e 1 Co 14.2,14)

Em sétimo lugar, anjos são ape­nas “espíritos ministradores’’ (Hb 1.14). A palavra “ministrador” no versículo citado é, no texto grego, “servo”. Anjos são espíritos servido­res que concedem ajuda, e esta aju­da é dada aos herdeiros da salvação, para a realização do propósito de Deus na Terra. Mas, de que forma esse serviço é feito?

Anjos não curam ou batizam no Espírito Santo. A Bíblia nos mostra que anjos são servos cujo ministério, em prol dos filhos de Deus na Terra, envolve tão somente proteção (SI 91.11), orientação (Gn 19-17), enco­rajamento (Jz 6.12), livramento (At 12.7), suprimento (SI 105.40), autori­zação (Lc 22.43), repreensão (Nm 22.32) e proclamação do julgamento divino (At 12.23). E na maioria das vezes o serviço dos anjos é feito sem que estes sejam reconhecidos (2Rs 6.17 e Hb 13-2). O que passar disso é invenção.

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SILAS DANIEL

FONTE: REVISTA “RESPOSTA FIEL” ANO 2- N°6

 

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