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Dá Páscoa para a Ceia

Por   /  13 de outubro de 2021  /  Sem comentários

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“… Lembrai-vos deste mesmo dia…” (Ex 13:3)

Isto foi dito acerca da Páscoa.

À luz desta afirmação vale lermos também Êxodo 12:14: “Este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Se­nhor; nas vossas gerações o ce­lebrareis por estatuto perpétuo”. “Guardai isto por estatuto para vós, e para vossos filhos para sempre” (1). A solenidade da Páscoa e a sua mensagem profé­tica exigia a solene advertência feita por Deus ao povo de Israel.

Por que Deus insistia tanto em que este dia – o dia em que os exércitos de Israel saíram da dura escravidão do Egito para a li­berdade da Terra Prometida – es­tivesse constantemente nos co­rações e nas mentes dos Israeli­tas? Por que tinham de lembrar sempre, com muita solenidade e não menos temor, este dia da li­bertação duma escravidão ver­gonhosa que durara 400 anos na terra de Faraó? Que efeito deveria ter esta libertação nas suas vidas?

A tal ponto o acontecimento se reveste de solenidade que, ao perguntarem pela vida fora os seus descendentes “Que culto é este vosso?” (2), eles teriam de contar a velha história, e com tal gama de pormenores e sentido de reverência e gratidão, que o fato deveria assumir para com os descendentes, em todo o tempo da sua história os mesmos sen­timentos de libertação, de gozo, de providência e ação divina reveladas naquela noite solene. Sim, naquela noite quando o sangue do cordeiro, aspergido nas ombreiras e na verga das portas de suas casas no Egito, fora o sinal da proteção, da passagem misericordiosa de Deus sobre suas habitações, poupando a vida dos seus pri­mogênitos (3).

Não seria a lembrança daquele glorioso livramento, um motivo que os devia compelir a uma vida de fidelidade ao Senhor? Como os seus corações não deveriam estar cheios de gratidão?! Como poderiam eles esquecer Deus, que tão graciosamente lhes mos­trara a Sua grande misericórdia?

A lembrança da libertação de­les também deveria ser para cada israelita, um motivo não apenas de fidelidade, mas igualmente de consagração total da vida e dos seus bens. Nisso estava o fun­damento da sua redenção. Deus reclamava, como sendo Sua propriedade, todos os primogê­nitos dos filhos de Israel, como igualmente os filhos dos animais – os primogênitos que o Senhor poupara -, como representantes de toda a família e de todos os animais. É deveras importante o significado desta plena consa­gração. Mais adiante, no serviço do culto, os levitas serão dados em lugar dos primogênitos, e to­dos os animais limpos que abris­sem a madre como meio de sa­crifício pelos pecados do povo.

“FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM”. – Isto foi dito pelo Senhor Jesus naquela noite so­lene em que Ele comeu a Páscoa com os Seus discípulos e a seguir instituiu a Ceia do Senhor (4). Como o Senhor Jesus Cristo está ansioso para que tenhamos constantemente ante nossos olhos, e nos nossos corações, a lembrança viva da Sua morte na Cruz, mediante a qual fomos re­midos da escravidão do pecado e do poder de Satanás! Que in­fluência a lembrança da Sua Obra vicária deverá ter nas nossas vi­das! Que sublime e que solene o Seu ensino! Eis os desafios:

— À luz de 1 Pedro 1:15- 19, a Cruz constitui o motivo que nos impele a viver uma vida de plena santificação.

— À luz de 2 Coríntios 5:14, 15, a Cruz torna-se o motivo que nos impele a viver uma vida desinteressada, sem ambição das coisas deste mundo.

— Pensemos n’Ele e à luz de Romanos 12:1, e veremos que a Cruz nos impele a viver uma vida de plena dedicação até ao sacrifício.

O assunto quanto à Ceia do Senhor reveste-se de muita so­lenidade. Não é um cerimonial qualquer, não é um ritual que pode ou não passar por alto na experiência dos verdadeiros ser­vos de Deus. Nem é, tão pouco, algo que tenhamos fé de praticar segundo ideias humanas. Nada de ritos pomposos, cerimônias misteriosas! Mas quanto de rea­lidade, de tocante, de influência espiritual! É com verdadeiros sentimentos de amor e gratidão que pensamos naquela cena su­blime – a primeira celebração da Cela do Senhor!

O mesmo Jesus no meio dos discípulos, prestes a ser separado deles, traído, negado, desampa­rado, condenado, vituperado, açoitado e crucificado; não obs­tante consolando-os e instituindo este tocante “Memorial” de Amor, amor que ardia com inextinguível chama pelos Seus, e que levaria Cristo às profundezas de uma dor incomparável, e até inconcebível, a fim de os remir e garantir-lhes bênçãos eternas e celestes!

“FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM”- Como isto é sublime na sua simplicidade! Que coisa podia melhor trazer Jesus e o Seu amor à memória do Seu povo, de um modo tão calculado a sensi­bilizar seus corações, como estes símbolos do Seu corpo e do Seu sangue — Seu corpo dado, Seu sangue derramado na morte?

Podemos avaliar a importância que o Senhor liga a esta institui­ção simples mas sublime, pelo facto d’Ele ter pessoalmente, e desde a Glória celeste, comuni­cado os pormenores dela ao apóstolo Paulo, segundo lemos no capítulo 11 da 1 Coríntios, e tendo como remate: “Porque todas as vezes que co­merdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Se­nhor, até que venha”. Meditemos um pouco nessa cena admirável em Jerusalém.

Quem estava presente? Jesus e os Seus discípulos, tendo pe­rante eles os símbolos da Sua morte. É isso exatamente o que sucede hoje em dia, quando o povo do Senhor se reúne para o Seu nome – estão eles e o Senhor no meio deles; diante deles os símbolos da Sua morte, sendo o Espirito Santo neles o poder pelo qual revive neles a memória do Senhor na Sua morte. E, de “cada vez que comerdes este pão e be­berdes este vinho, anunciais a morte do Senhor, até que venha”. Que grande o privilégio de nos reunirmos, como sendo “um só pão e um só corpo”, palavras que nos falam da nossa perfeita uni­dade com o Senhor. É por este motivo que Paulo ensina: “Por­ventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a co­munhão no corpo de Cristo?” (5)

“FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM”; “ANUNCIAIS A MORTE DO SENHOR ATÉ QUE VENHA”- Como o Senhor Je­sus deseja que este seja um “Memorial” não apenas perpétuo, até que Ele venha, mas um “Me­morial” sem fermento, pão sem farinha de joio; vinho não feito “a martelo”, como sói dizer-se. Pessoas estranhas cercando a mesa do Senhor? Nem pensar nisso! Pessoas não convertidas a participarem da comunhão no corpo e no sangue de Cristo? Não dá para se admitir!

Comunhão é comunhão, é ter em comum, é ter a mesma fé, ter a certeza do perdão dos pecados, da salvação que os elementos pão e vinho simbolizam. Comu­nhão é viver na luz como Ele está na luz; é amar a verdade no ín­timo; é experimentar a ligação com Deus; é seguir a Sua Palavra; é amar os irmãos; é viver não mais para si mesmo, mas para Aquele que por nós morreu e ressuscitou. É viver na comunhão do Espirito Santo que, através da Ceia do Senhor, nos diz que “Ele vem” (6).

Como é possível subestimar e ainda liberalizar nos nossos dias o valor e importância da Ceia do Senhor? Permitir à Mesa do Se­nhor pessoas que não são salvas; pessoas que ainda não morreram com Cristo e para o pecado; pessoas que têm o nome de cris­tãos mas vivem ainda como pa­gãos, conservando ídolos na sua residência, sintomas de idolatria e culto de demônios nas suas casas e vidas? Qual é o “Memo­rial” que ensinamos aos nossos filhos e às gerações antes da Segunda Vinda do Senhor? Não é possível ser-se “participante da Mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (7).

O erro subtil de Satanás, “aquela antiga serpente que en­gana todo o mundo”, é fazer-nos crer que é interessante, que será um bom testemunho para as pessoas não salvas, não batizadas, não participantes da membresia da igreja local, as quais fi­cam a saber de uma cerimônia tão linda, de uma cerimônia com um significado tão interessante! E medimos com rigor que para ser-se participante da igreja local, com seus privilégios e deveres, temos de ser batizados com o verdadeiro baptismo cristão; mas quanto à Ceia do Senhor, cujo memorial é tão rigoroso como o foi a Páscoa para os Israelitas, isso não tem tanta importância, e daí “examine-se o homem a si mesmo e assim coma deste pão e beba deste cálice”! É bem-vindo, é livre para tomar parte na Ceia… Filosofia barata. Interpre­tação dupla!

O que Paulo recebeu do Se­nhor e ensinou aos coríntios, ao dar a instrução para a prática deste sublime “Memorial”, foi “que na noite em que Jesus foi traído…” (8). Parece-nos ouvir Cristo a dizer-lhe: “Paulo, nessa noite, quando Eu lavei os pés a Judas Iscariotes, ele saiu e foi vender-me, traiçoeiramente, ci­nicamente aos sacerdotes”. A Ceia do Senhor celebrada de qualquer maneira a fim de im­pressionar alguém, a fim de ser apenas parte de um ritual, cheira-nos a traição. Traição é des­lealdade, intriga, aleivosia, perfí­dia.

Todo o alcance dos propósitos e conselhos de Deus — a revela­ção de Si próprio na plenitude da Sua graça, e os seus propósitos eternos para o Filho do Seu amor -, tudo achou o seu centro na­quilo que a Ceia do Senhor nos fala: a morte de Jesus.

Como podem as nossas almas contemplar aquela cena da morte de Jesus, o centro de duas eter­nidades, sem se dirigirem em profunda adoração ao Pai? As­sim, cada vez que nos reunirmos para celebrar o nosso “Memorial” e nos lembrarmos d’Ele, permita Deus que seja essa também uma ocasião em que havemos de adorar o Pai em espírito e em verdade.

Que a Ceia do Senhor seja apreciada por nós como um dos nossos maiores e mais sublimes gozos cá na Terra. Guarde-nos o Senhor de fazermos festa “com o fermento da maldade e da malí­cia”, mas antes com os asmos da sinceridade e da verdade” (9). Amém!

 (1) Ex 12:24. (2) Ex 12:26b. (3) ver Ex 20:2; Dt 5:6; 6:12; Jl 24:16, 17; Jz 6:8-10. (4) Lc 22:13-20. (5) 1 Co 10:16, 17. (6) Ap 22:17. (7) 1 Co 10:20, 21. (8) 1 Co 11:23. (9) 1 Co 5:8.

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ALFREDO MACHADO, FONTE: REVISTA “ NOVAS DE ALEGRIA” – 1995

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