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O Porquê das diferentes versões da Bíblia

Por   /  5 de janeiro de 2020  /  Sem comentários

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A grande quantidade de versões da Bíblia já está trazendo efeitos colaterais. A língua portuguesa está enriquecida com as inúmeras versões das Sagradas Escrituras no seu mais variado nível de linguagem, mas infelizmente ainda há os que acreditam que a Bíblia só conserva a sua inspiração se a tradução for literal, palavra por palavra, e se o Novo Testamento for traduzido do Textus Receptus.

É natural que cada denominação evangélica ou ramo do cristianismo adote um texto padrão da Bíblia para uso nas suas reuniões oficiais, leitura regular de seus membros e para ser usado como referência em suas publicações. Isso ajuda até numa leitura responsiva num culto, visto que nesse caso todos os participantes estão lendo exatamente as mesmas palavras.

A adoção de um texto padrão não desmerece e nem desqualifica as outras versões da Bíblia. A sua inspiração é conservada em qualquer língua e em qualquer nível de linguagem, pois a vontade de Deus é que todos os homens conheçam a verdade (lTm 2.4). Porém, é falsa a teoria de que a inspiração da Bíblia só pode ser conservada na sua língua original ou numa versão em língua clássica ou erudita. Tal conceito seria o mesmo que defender a crença da língua sagrada, como o sânscrito no hinduísmo e o árabe do islamismo

O islamismo acredita que seu livro sagrado, o Alcorão, só conserva a sua alegada inspiração se for conservada em sua língua original. Apesar de existir o Alcorão em outras línguas, para os muçulmanos essas versões perdem a sua “inspiração”. No cristianismo as coisas não funcionam as­sim. Há inúmeras citações da Septuaginta no Novo Testamento. O Senhor Jesus fez uso dela em seus ensinos e pregações (Is 7.14; 8.8,10; Mt 1.23; Is 42.4 e Mt 12.21). Da mesma forma o fizeram os apóstolos em seus escritos: Paulo (Dt 27.26 e Gl 3-10), Pedro (Is 28.16 e lPd 2.6). Tiago (Pv 3.34 e Tg 4.6). Os apóstolos não judaizaram as nações quando levaram o Evangelho a outros povos.

A geração que retornou do cativeiro babilonico falava aramaico, que era a língua oficial do império, falada em todos os seus domínios. Eles não entendiam bem a leitura da Lei e dos Profetas, feita em hebraico nas sina­gogas. Por isso surgiu a necessidade de explicações orais em aramaico (Ne 8.8). Depois essas explicações foram escritas. São os chamados targumím, traduções parafraseadas do Velho Testamento hebraico para o aramaico. O Targum de Ônquelos contém o Pentateuco e o de Jonatas, os Profetas.

O Targum de Ônquelos parafraseou a expressão “Eu Sou” de Êxodo 3.14 e Deuteronômio 32.29 assim: “Aquele que é, e que era, e que há de vir”. Essa mesma expressão aparece cinco vezes no livro de Apocalipse (Ap 1.4,8; 4.8; 11.17; 16.5). Esses exemplos nos mostram que Deus não está preocupado com as formas, estilos e construções gramaticais, mas com o conteúdo da mensagem. A linguagem pode ser atualizada, porém a mensagem jamais poderá ser alterada. Quando a mensagem é modifica­da, como acontece com a Tradução do Novo Mundo, texto oficial das Testemunhas de Jeová, essa versão deixa de ser inspirada, pois o texto foi corrompido e falsificado.

A paráfrase procura traduzir explicando o texto. Não traduz palavra por palavra, mas ideia por ideia. Ela faz o que uma tradução literal não poderia fazer. Às vezes é necessário o uso de nossas expressões idiomá­ticas para que o texto fique mais claro. Apesar de apresentar certos peri­gos, mesmo assim é perfeitamente possível manter a sua fidelidade ao texto original.

O Textus Receptus é a última revisão do texto impresso do Novo Testamento grego, preparado por Erasmo de Roterdã e publicado em 1516. Foi d primeiro texto impresso do Novo Testamento grego a ser publicado após a invenção da imprensa. É verdade que Francisco de Cisneros terminou seu texto antes de Erasmo, em 1514, mas ele só foi publicado em 1520.

Erasmo não dispunha de manuscritos completos do Novo Testamento por essa razão fez uso de quatro manuscritos gregos cursivos: um do século 10, dois do século 12, sendo que um deles contém apenas o apocalipse com algumas lacunas supridas pela Vulgata, e um do século 13, que contém apenas Atos e as epístolas. Na época não havia os dos princípios de crítica textual e nem Erasmo teve acesso aos principais manuscritos unciais. Além disso, em seus dias os papiros ainda não ti­nham sido descobertos.

O texto de Erasmo foi revisado várias vezes. Os irmãos Bonaventure e Abraham Elzevir publicaram uma nova edição desse texto de Erasmo em 1624 e a intitularam: Textus Receptus, que significa “O Texto Recebido”. Ele serviu de base para as principais traduções modernas do Novo Testamento, como a de João Ferreira de Almeida, King James Version (Versão Inglesa do rei Tiago), versão espanhola de Casiodoro de Reina, dentre outras.

Hoje existem cerca de 5,5 mil manuscritos gregos no Novo Testamen­to espalhados por museus mosteiros em toda a Europa. Seria muita ingenuidade esperar que todas essas cópias, produzidas à mão em três conti­nentes durante mais de 13 séculos, ficassem exatamente iguais, como as páginas impressas. Como era de se esperar, há algumas diferenças como ordem diferente de palavras, sinónimos, soletração, palavras, frases e versículos omissos, acrescidos ou deslocados.

A Crítica Textual, desde 1750, checou cada versículo em todos esses manuscritos e os críticos ficaram estupefatos com o grau de exatidão. Considerou como cientificamente provado os versículos que aparecem exatamente iguais em todos os manuscritos. Isso não significa que os versículos que ficaram de fora sejam espúrios, mas que simplesmente não têm a chancela científica.

Como resultado dessa pesquisa surgiram os textos gregos do Novo Testamento com Aparatas Criticas, dentre eles Westcott e Hort, Eberhard Nesde e ultimamente a edição das Sociedades Bíblicas Unidas. Esses textos dife­rem, nos detalhes já citados, do Textus Receptus. O texto de Nestle serviu de base para a Tradução Brasileira e a Versão Almeida Atualizada.

Como o cristianismo está fundamentado na fé e não na ciência, isso não deve nos incomodar. Além disso, essas diferenças não alteram absolutamente nada da mensagem bíblica, por isso não compromete a autenticidade, inspiração, autoridade e credibilidade das Escrituras. Basta conferir todas as passagens entre colchetes no Novo Testamento da Versão Almeida Atualizada com as da Versão Almeida Corrigida e qualquer leitor verá que essas diferenças não modificaram a mensagem do Novo Testamento.

Devemos tomar muito cuidado para não entrarmos pelo caminho do fanatismo. Assim como é pecado tirar qualquer palavra das Escrituras Sagradas, é da mesma forma pecado também lhes acrescentar quaisquer palavras (Dt 4.2; 12.32; Pv 30.6 e Ap 22.18-19).

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Fonte: Ezequias Soares – Novembro/2002 (Artigos Históricos – Mensageiro da Paz /Vol.3)

 

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