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Por que recusamos os livros apócrifos?

Por   /  15 de abril de 2019  /  Sem comentários

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“Onde está escrito que os livros inspirados são 66?” Essa pergunta foi feita por dom Amaury Castagno, bispo da Diocese de Jundiaí, no então jornal A Tribuna de Jundiaí (SP), na edição de 31/10 a 06/11/1995, em uma matéria intitulada Perguntas Indiscretas. A matéria se constitui numa série de questionamentos que os católicos romanos devem dirigir aos protestantes.

Mesmo se não tivéssemos uma resposta bíblica para a referida pergunta, poderíamos respondê-la usando outra pergunta: “Onde está escrito que os livros inspirados são 73?”. É o método dos judeus, que o próprio Jesus usou, de responder uma pergunta com outra pergunta (Marcos 11.28-33 e Lucas 20.2-25).

O foco da discussão são os livros de 1 e 2 Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque e os acréscimos ao livro de Ester e Daniel, num total de 73 livros em sua Bíblia. São acréscimos à Bíblia ou faltam livros em nossas Bíblias?

Esses livros sobressalentes nas versões católicas da Bíblia são chamados de livros apócrifos. A palavra “apócrifos” vem do grego apócrifos e significa “escondidos”. Essa literatura foi produzida numa época de agitação religiosa e política na vida do judaísmo, entre 300 a.C. e 100 d.C. Os rabinos chamavam esses livros de “os de fora”, ou seja, fora do Cânon Sagrado dos judeus. Cirilo de Jerusalém seguiu esse mesmo pensamento, simplesmente substituiu o termo usado pelos rabinos por “apócrifos”.

Os livros do Velho Testamento que adotamos são os mesmos aceitos pelos judeus, por nosso Senhor Jesus Cristo e seus apóstolos. Desde muito cedo na História da Igreja havia discussões sobre esses livrosa. Agora cabe aqui uma pergunta: Por que a Igreja Católica Romana usou durante seus primeiros séculos esse mesmo Cânon, mudando-o somente após a Reforma Protestante, no Concílio de Trento? Por que ocorreu a necessidade de se acrescentar algo a uma lista que se mostrou satisfatória por tantos séculos?

Esses livros estavam presentes na Septuaginta, mas nunca fizeram parte das Escrituras hebraicas. O Sínodo de Jâmnia, concílio dos rabinos, realizado por volta do ano 100 d.C., portanto, depois do encerramento do Cânon dos judeus, debateu sobre a permanência de Provérbios, Eclesiastes, Cantares e Ester no Cânon Judaico. Nada foi modificado, o Cânon permaneceu inalterado.

O Terceiro Concílio de Cartago, em 397, propôs a inclusão desses livros no Cânon Sagrado, mas como de leitura adequada, mesmo assim Jerônimo resistiu. Eles foram incluídos na Vulgata, mas ocupando um lugar secundário, apresentando essa diferença entre os libris ecclesiastici e os libri canonici. Os reformadores reconheceram os apócrifos como indignos e contraditórios com as doutrinas dos livros canônicos. Em 1534 Martinho Lutero traduziu a Bíblia completa e incluiu os apócrifos com estes dizeres: “Apócrifos, isto é, livros que não são considerados iguais à Sagrada Escritura, porém sua leitura é útil e boa”. Em 1827, a British and Foreign Bible Society decidiu excluir os apócrifos de suas Bíblias e pouco depois os norte-americanos seguiram o mesmo padrão.

Esses livros apresentam erros históricos, geográficos, anacronismos. Ensinam doutrinas falsas e incentivam práticas divergentes das Escrituras inspiradas. O estilo destoa das Escrituras Canônicas e faltam o caráter divino e a autoridade profética. Filon, Josefo, o Sínodo de Jamnia, Orígenes, Cirilo de Jerusalém, Atanásio e muitos outros da patrística citaram tais livros, mas nenhum jamais fdeles reconheceu a sua autoridade.

O Cânon Hebraico constitui-se apenas do Velho Testamento, embora seu texto seja igual ao nosso Velho Testamento em português. Porém, é diferente apenas no seu arranjo. Os judeus consideram os livros de Samuel como se fossem apenas um livro, da mesma forma os livros dos Reis, das Crônicas, Esdras e Neemias, também os doze livros dos profetas menores como um só, sendo os nossos 39 livros reduzidos a 24, sem contudo alterar seu conteúdo.

A Bíblia hebraica, desde a época do ministério terreno do Senhor Jesus, estava dividida em três partes: Lei, Hagiógrafos (Escritos Sagrados) e Profetas, em hebraico Torah, Nevyim ve Chituvim, cuja sigla ainda hoje usada é Tanach. Segundo Josefo, essa era a mesma divisão da Bíblia do primeiro século:

“Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou, e que se refere a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisésque refere tudo o que aconteceu até sua morte, durante perto de três mil anos e a sequência dos descendentes de Adão. Os profetas que sucederam a esse admirávellegislador, escrreveram em treze outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até ao reinado de Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas e outros livros, contém hinos e cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes.

Escreveu-se também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não se teve, como antes, uma sequência de profetas, não se lhes dá o mesmo crédito que os outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, chamamo-los assim; fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria se for necessário, para prová-lo” (História dos Hebreus, Contra Apion, Livro I, capítulo 2, CPAD, Rio, 1992).

Dois pontos de fundamental importância encontramos nessa declaração de Josefo. Primeiro, os apócrifos são mencionados como não tendo o mesmo crédito dos demais. Convém lembrar que isso não é coisa dos protestantes. Trata-se, portanto, de um documento do final do primeiro século. Em segundo lugar, o historiador apresenta a mesma tríplice divisão que o Senhor Jesus mencionou em Lucas 24.44: “Convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos”. Os ‘Salmos’ representam os Hagiógrafos, pois encabeçam essa última parte, e que nesse Cânon não constam os apócrifos.

A seleção dos livros autorizados ocorreu depois do encerramento do Cânon Sagrado, obviamente não pode ser encontrado na Bíblia. Portanto, a pergunta do bispo está mal formulada ou é capciosa. Visto que os 27 livros do Novo Testamento estão fora de questão, pois são os mesmos das edições católicas da Bíblia. O problema reside no Velho testamento. O Senhor Jesus usou e citou o cânon dos judeus, com isso podemos afirmar que a própria Bíblia afirma ser composta de 66 livros.

Pr. Esequias Soares, Teólogo Apologista da CPAD, Assembleia de Deus Jundiaí/SP

 

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  • Publicado: 6 meses atrás em 15 de abril de 2019
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  • Última modificação: abril 15, 2019 @ 8:23 am
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