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Tolerância ou concordância?

Por   /  25 de outubro de 2021  /  Sem comentários

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“Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (2Co 13.8)

A mensagem que mais ouvimos em nossos dias reclama paz entre as religiões. Recente­mente, Gregory Smith, ado­lescente americano de 14 anos, formado em matemática pela Harvard, e corre o mundo pregando a paz mundial, foi questionado:

— Qual é a sua religião?

Ao que ele respondeu:

— Faço conexões entre todas as re­ligiões para que elas possam funcionar como uma só.

Tolerância, principalmente religiosa, é a palavra do dia. Amold Toynbee, gran­de pensador e historiador, disse que o cristianismo deve abandonar a crença de que é único, para que possa haver maior harmonia entre as religiões.

Se tolerância quer dizer respeito à crença alheia, concordamos. Não deve­mos atrapalhar o culto de ninguém. Não podemos depredar os elementos de qualquer religião, nem mesmo agredir a crença alheia verbal ou fisicamente. Isto é direito constitucional. Se quisermos ser respeitados, temos de respeitar. “Por­tanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas” (Mt 7.12). Isto é tolerância.

Esta tolerância, todavia, não significa que somos obrigados a concordar com as afirmações e práticas dos outros, ou que não devamos dizer às pessoas o motivo que nos leva a discordar delas. Todos são livres para crer no que quiserem e nós tam­bém, porém, cremos que a nossa obriga­ção é dizer-lhes a verdade de Deus. Res­peito não significa indefinição.

O grande pensador cristão, Francis Schaffer, em seu livro, A Igreja no século XX, afirmou que a Igreja deve ser bem cla­ra em seus princípios, explicando que po­demos ser co-beligerantes sem sermos ne­cessariamente aliados. Isto é, podemos até apoiar certas causas e batalhar por elas, sem que isso signifique que concordamos com outros grupos que fazem o mesmo.

Podemos, por exemplo, defender a necessidade de dar assistência às pessoas carentes, sem, com isso, querer dizer que concordamos com os espíritas ou com a LB V. Fazemos as coisas por princípios bí­blicos e não por modismos ou instigação de algum grupo específico.

A verdade não pode ser sacrificada no altar da paz, nem as convicções so­bre o altar da tolerância. Concordar com o erro, associando-se a ele, é um assassinato à consciência. “A fé cristã é uma fé objetiva; deve, portanto, ter um objetivo. O conceito cristão de fé ‘salvadora’ é o de uma fé em que se es­tabelece um relacionamento com Jesus Cristo […] Um clichê que se deve rejei­tar é: ‘Não importa o que você crê, des­de que tenha convicção disto’”.

APOLOGIA À APOLOGÉTICA

Alguns chegam ao extremo de consi­derar a apologética uma agressão. Classi­ficam a análise de doutrinas religiosas à luz da Bíblia um mero “falar mal”. Defen­dem uma espécie de “viva e deixe viver” cristão. Mas esta atitude não tem nada de cristã. Não passa de um espírito semi-ecumênico moderno de tolerância, uma acomodação perigosa diante do engano­so e do falso. A Palavra é clara quando ordena que livremos os que estão desti­nados à morte e salvemos os que camba­leiam para a matança (Pv 24.11).

Se os profetas bíblicos assim pen­sassem, nada escreveriam, pois suas palavras eram uma verdadeira condenação às religiões ao seu redor. Ou ignoram que o próprio Jesus mostrou os erros doutriná­rios dos grupos religiosos de sua época (Mt 22.15-33) e disse que eles erravam por não conhecerem as Escrituras nem o poder de Deus (Mt 22.29)? Ou esquecem que uma boa porção das epístolas paulinas foi sua apologia contra doutri­nas erradas (G12.1-5; Cl 2.8)? Ou, ainda, que João, o discípulo do amor, foi radical contra os falsos ensinos, dizendo que se alguém não ensinava a verdadeira dou­trina cristã era enganador e anticristo e não deveria ser hospedado na casa dos irmãos como se fosse um mensageiro do evangelho (2Jo 7,8). Sem deixar de men­cionar que Pedro falou contra os falsos mestres (2Pe 2.1 -22) e Judas exortou seus leitores a combaterem pela fé que de uma vez por todas foi dada aos santos (Jd 3).

Nossa fé precisa ser defendida raci­onalmente. Não porque a lógica cria a fé, mas porque pode vir a perecer sem ela. “Embora o argumento não crie con­vicção, a falta dele destrói a fé. O que parece ser provado pode não ser abra­çado; mas o que ninguém mostra a ha­bilidade de defender é prontamente abandonado. Argumento racional não cria crença, mas ele mantém um ambi­ente em que a fé possa florescer”.

Não defendemos a agressão, o des­prezo e o rancor contra os não-cristãos. Devemos seguir a verdade em amor (Ef 4.15). Concordamos que não se deve perguntar a religião do que está caído no caminho de Jerusalém para Jericó. Devemos apenas ajudá-lo no que for necessário. Mas a nossa atitude não é uma concordância com suas crenças, não é uma aceitação incondicional das doutrinas professadas por ele. Dizer a verdade ao meu próximo também é uma forma de demonstrar-lhe amor.

Todavia, nós julgamos e analisa­mos doutrinas e não pessoas. Um exemplo: o budismo, diante da Bíblia, é uma mentira, uma falsidade que pre­cisa ser exposta. O budista é um ser humano que precisa ser amado e, por­que precisa ser amado, tenho de lhe falar de seu erro. Quando compara­mos as doutrinas budistas à luz do cris­tianismo, não o fazemos com um sentimento de superioridade, mas com um senso de verdade e de necessidade, buscando evitar que outros tomem a mesma vereda.

A QUESTÃO MAIS IMPORTANTE

O historiador Will Durant disse que “onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos (incrédulos) em rela­ção a todas elas”. Mas crer em nenhu­ma também é uma opção entre as de­mais. Escolher não crer também é uma escolha religiosa.

O homem discute a respeito de tudo em sua vida: sua carreira profissional, seu casamento, suas preferências polí­ticas, esportivas, culturais. Existem de­bates e análises sobre todas as ciências, sejam humanas, exatas ou biológicas. E, dentro dessas ciências, existem linhas diversas que são discutidas e rediscutidas em seminários, livros e pa­lestras. Homeopatia versus alopatia, freudianos versus jungianos, física clás­sica versus física quântica, etc. Na política e na economia, os partidos e cor­rentes multiplicam-se. Cada ramo da ci­ência tem seus conceitos que procuram defender diante das demais opções.

A religião é aquilo que define o destino eterno do homem. “Rendendo o homem o espírito, então onde está ele?”, pergunta Jó (14.10). “Morreu, acabou”, diria o ma­terialista ateu. “Vamos renascer em outro corpo”, diria o reencamacionista. “Purga­tório”, defenderia o católico. “Descansan­do no seio de Abraão ou sofrendo no Sheol até a ressurreição”, declara o evangélico. Mas nem todos estarão cer­tos ao mesmo tempo. E, embora as opi­niões possam ser muitas, a realidade, po­rém, é uma só. Se o homem falhar em sua escolha, ser-lhe-á tarde demais. “Há um caminho que ao homem parece di­reito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Pv 14.12).

Temos consciência de que o abuso nas atitudes religiosas tem produzido até mesmo guerras. Todavia, as guerras não nasceram das convicções religiosas, mas, sim do comportamento errado diante delas, o que é diferente. A Bíblia não ensi­na a agressão nem o silêncio diante do erro, mas nos instrui a “responder [defen­der no original] com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da espe­rança que há em nós” (IPe 3.15).

LÍDIO HAMON, REVISTA “DEFESA DA FÉ” N°72 ANO 9

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