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Um Guia Bíblico sobre Ortodoxia e Heresia

Por   /  5 de maio de 2021  /  Sem comentários

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Para a maioria dos cristãos, hoje em dia, o fato de aprender a discernir a doutrina ortodoxa da doutrina herética aparentemente não se faz necessário. Ou tra­tam a doutrina como minimamente importante e, por­tanto, reconhecem as acusações de heresias como brus­cas e sem amor ou a tratam como sumamente impor­tante e, portanto, consideram qualquer pessoa que não esteja de acordo com seus pensamen­tos como um herege em sentido abso­luto. Em suma, a maioria dos crentes parece crer que quase não há hereges ou que quase todos os que estão fora de seu pequeno grupo são hereges.

A capacidade de discernimento dou­trinário, então, se encontra em sério perigo. Embora ministérios de discernimento e de combate às seitas heréticas estejam crescendo rapida­mente por toda parte, muitos deles ope­ram tendo como base uma compreen­são excessivamente estreita da ortodo­xia. Portanto, tais grupos se acusam de uma forma merecida de serem “caça­dores de heresias” e desacreditam a prática do discernimento doutrinário. No outro extremo – e geralmente racio­cinando de forma contrária aos “caça­dores de heresias” – se encontram aque­les dentro da comunidade cristã que rechaçam as advertências de heresia entre os que professam ser cristãos.

Neste artigo tratarei de desenvolver um enfoque equilibrado do assunto da heresia doutrinária. Apresentarei um caso bíblico para a prática de discernir o ortodoxo das doutrinas heréticas e oferecerei guias para o discernimento doutrinário.

Para fazer este artigo ser tão útil quanto possível, evi­tarei fazer referências a grupos heréticos específicos e sub-ortodoxos, suas doutrinas, e suas práticas. Isso é para que possa ser lido sem conflitos pelas pessoas em gru­pos religiosos que evitam a leitura que possa conter crí­ticas a suas crenças. Ademais, evitarei citar ou mencio­nar fontes além da Bíblia, para que tudo que lhes diga possa ser sustentado em seu mérito tanto quanto possí­vel. Uma bibliografia de leituras recomendadas será dada no final.

Minhas próprias convicções teológicas são as do evangelismo protestante. A maior parte do que tenho que dizer neste artigo, sem dúvida, é compatível com outras tradições cristãs também.

A NECESSIDADE DA DOUTRINA

As palavras “doutrina” e “doutriná­ria” têm chegado a ser termos pejorati­vos para muitos – como “doutrinar” e “dogma”. (Para as definições destas e de outras palavras, consulte o glossário que acompanha este artigo.) Muitos cristãos evangélicos, que não afirmam certas doutrinas, prestam pouca aten­ção à doutrina além de um certo mí­nimo.

Das muitas objeções à doutrina cris­tã, podem ser escolhidas cinco como especialmente influentes. A doutrina amiúde se diz ser (1) impertinente, (2) impraticável, (3) divisora, (4) não espi­ritual, e (5) não conhecida. A impor­tância da doutrina pode-se mostrar melhor ao apresentar-se respostas positi­vas a estas acusações.

A PERTINÊNCIA DA DOUTRINA

No pensamento popular, a doutrina tem a ver com assuntos insignificantes que são impertinentes à maioria das pessoas. Embora a doutrina possa ser frí­vola, a doutrina cristã é extremamente pertinente a todas as pessoas. A doutri­na cristã (i.e. os ensinamentos das Sagradas Escrituras) responde às perguntas fundamentais da vida – perguntas tais como quem é Deus, quem so­mos nós, e por que estamos aqui (SI 8.3-8; Hb 11.6). Como se responde a estas perguntas, decisivamente for­ma a maneira na qual vivemos. Ignorá-las é passar a vida alegremente ignorante do que é importante na realidade.

A doutrina é particularmente importante porque uma proclamação sã do evangelho da Salvação depende de uma compreensão exata do que é o Evangelho, do que é a salvação, e como se recebe a salvação (GI 1.6-9; 1 Tm 4.16). Nada menos que nosso futuro eterno depende disso. Não tenho a intenção de dar a entender que todos devemos ser teólogos e especialistas em to­dos os pontos mais refinados da doutrina para sermos salvos. Mas a Igreja em sua totalidade deve ter grande cuidado de proclamar fiel mente o verdadeiro Evange­lho, e que todos os cristãos tenham in­teresse no assunto. Tenho mais o que dizer sobre este ponto mais adiante.

É verdade que alguns assuntos dou­trinários são menos importante que outros. Uma das funções mais decisi­vas da Teologia cristã, e uma das mais descuidadas, é a de separar o que é realmente importante – o essencial – do que é menos importante e mesmo o que é impertinente (cf. Rm 14).

Portanto, tratada devidamente, a doutrina é muito pertinente para a vida humana, e a busca da doutrina funda­mental deveria ser, portanto, o interes­se de todo o mundo, ao menos até cer­to ponto.

A PRATICABILIDADE DA DOUTRINA

É comum em nossos dias afirmar que a prática é mais importante do que a teoria – que a ortopraxis (fazer o bem) é mais importante do que a ortodoxia (crer no bem). Mas esta afirmação é teoria em si mesma – algo que as pes­soas pensam e logo dizem, e logo tra­tam de colocar em prática. O fato é que o que pensamos determina o que fa­zemos. Portanto, a doutrina – como algo que pensamos – afeta o que fazemos, e tem significado prático.

Deveria reconhecer-se, dessa forma, que os efeitos práticos da doutrina têm seus limites. A doutrina nem sempre será o fator isolado que determinará nossas ações, já que as pessoas geralmente atuam movidas por desejos ou interesses contrários às doutrinas que man­têm. Por exemplo, alguém pode crer como doutrina que mentir é mau, mas pensamentos orgulhosos po­dem tomar posição superior sobre convicções doutri­nárias e conduzir uma pessoa a mentir. A praticabilidade da doutrina se encontra não em determinar nossa prá­tica, mas sim em comunicá-la, – em dar-nos o conheci­mento com que, pela graça de Deus, podemos fazer o bem.

O ponto é que deveríamos considerar ambos, o co­nhecimento e a prática, como importantes. Ultimamen­te, o que é importante é que uma pessoa vive em obe­diente comunhão com Deus e que ex­perimente Seu amor; nesse sentido, possivelmente a prática seja mais importante do que a doutrina. Mas Deus mesmo tem revelado que Ele usa a dou­trina para adiantar essa meta prática em nossa vida (1 Tm 1.3-7; 2 Tm 3.15-1 7).

A importância prática da doutrina cristã, então, é grande na verdade. A doutrina nos permite desenvolver uma ideia realista do mundo e de nós mes­mos, sem a qual estamos condenados a viver ineficazmente (Mt 22.23-33; Rm 12.3; 2 Tm 4.3-4). A doutrina pode proteger-nos de crer em falsidades que transtornam a fé das pessoas, o que con­duz a uma conduta destruidora (1 Tm 4.1-6; 2 Tm 2.18; Tt 1.11). A doutrina também nos prepara para ajudar a ou­tros (Ef 4.11 -12).

A UNIDADE DA DOUTRINA

Geralmente, a crítica mais comum que se expressa acerca da doutrina é que divide as pessoas. E realmente, a doutrina – na história do Cristianismo como em outras religiões – muitas ve­zes tem dividido a humanidade de ma­neira até repreensível. Mas, num senti­do crucial, a doutrina tem a intenção de unir as pessoas.

Mesmo que seja certo que a doutrina inevitavelmen­te divide os indivíduos, isto não é algo que se possa evitar. As pessoas creem em diferentes coisas, e fazem diferentes coisas com base em suas crenças diferentes. O que é impensável, sem dúvida, é que a doutrina divida as pessoas que deveriam estar unidas, ou que as divisões deveriam expressar-se de maneiras injustas. Quer dizer, a doutrina não deveria dividir os cristãos fiéis um ao outro, impedindo-os de ter comunhão cris­tã juntos. A doutrina tampouco deveria conduzir as pes­soas a odiar ou a maltratar os que mantêm doutrinas diferentes das suas.

A Bíblia ordena aos cristãos que se afastem dos falsos mestres e dos heréticos com base nos fatores doutriná­rios (Rm 16.17; 2 Jo 9-11). Ao fazer assim, incentiva a resistir juntos à heresia (Ef 4.12-13). Portanto, o resistir à heresia pode fomentar uma unidade cristã genuína.

Conforme os cristãos amadurecem juntos em sua compreensão da doutrina bíblica, chegam a ser mais unidos à medida que seu pensamento se forma mais e mais da mesma manei­ra (1 Co 1.10). Ademais, uma compre­ensão equilibrada da doutrina pode ajudar os cristãos divididos por diferen­ças doutrinárias a estar reconciliando- se, conforme aprendem quais pontos são menores ou defeituosos e quais não o são (1 Tm 6.3-5; Tt 1.9-14). Supõe-se que uma compreensão pouco profun­da da doutrina facilmente fomenta de­sunião entre os cristãos, enquanto que uma maior compreensão da doutrina tenda a criar maior unidade cristã.

A ESPIRITUALIDADE DA DOUTRINA

Embora algumas pessoas considerem a busca da exatidão doutrinária como um intelectualismo não espiritual, a sã doutrina atualmente é muito importan­te para a firmeza espiritual. A doutrina cristã nos instrui acerca de Deus, Seus propósitos e Sua vontade para nossa vida, por que estamos afastados da gra­ça de Deus, como nos transformamos através da graça de Deus – em suma, tudo o que temos de saber para buscar a espiritualidade verdadeira (Rm 1.17- 18; 1 Tm 1.5,10; 2 Tm 3.16-17). A dou­trina provê controles externos e objeti­vos para nossas experiências subjetivas interiores para poder discernir a espiritualidade genuí­na da espiritualidade fraudulenta, artificial, ou ainda a espiritualidade endemoniada (Cl 2.2,23; 1 Jo 4.1-3).

Ao buscar uma compreensão exata da doutrina cris­tã, estamos cumprindo um dos aspectos do sumo man­damento de Deus – que amemos a Deus com toda a nossa mente (Mt 22.37). Este mandamento seguramen­te supõe que deveríamos ter grande cuidado e fazer todo o esforço para conformar nossas crenças e convic­ções à verdade (cf. Rm 12.2) – e isto quer dizer a dou­trina.

Algo também deveria ser dito aqui acerca da rela­ção entre o discernimento doutrinário e o discernimento espiritual. Em 1 Coríntios, Paulo fala mais de uma vez sobre o discernimento espiritual. A pessoa espiritual discerne todas as coisas, inclusive as coisas do Espírito de Deus, o que somente se pode discernir es­piritualmente (1 Co 2.14-15). Os membros da congre­gação haveriam de exercer discernimento com respei­to às profecias que se entregavam à Igreja (1 Co 14.29).E alguns cristãos estão dotados especi­almente para discernir os espíritos maus do Espírito Santo (1 Co 12.10). Com base nesta e em outras passagens, al­guns cristãos têm pensado que o discernimento nunca tem nada a ver com o exercício da inteligência. Em sua opinião, se discerne entre o bem e o mal na doutrina também como em as­suntos práticos simplesmente escutan­do a voz interna do Espírito Santo.

De nenhuma maneira desejo depre­ciar a obra do Espírito Santo em dar aos cristãos o discernimento. Certamente, todos os cristãos devem depender do fato de que o Espírito Santo lhes ilumi­ne a mente para que possam ver clara­mente a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado. E muitos cristãos que estão mal equipados para estudar a dou­trina a fundo são notavelmente capa­zes de discernir.

Seria equívoco, opor o discerni­mento espiritual ao discernimento dou­trinário. Em primeiro lugar, a ideia de que o discernimento é puramente es­piritual é em si mesma uma doutrina. Além disso, essa separação definida da doutrina e da espiritualidade assume uma dicotomia entre a mente e o espí­rito humano. Posto que esta suposição é também doutrina, todo o argumento é contraproducente. Há também razões bíblicas para rechaçar uma dicotomia da mente e do espírito (algo que não vou elaborar aqui).

Outra coisa, a Bíblia também anima os cristãos a que usem seu conhecimento da doutrina cristã para discernir o certo e o errado, e o bem do mal. O exemplo clássico disto está em 1 Jo 4.1-3, onde João nos manda que não creiamos em todos que afirmem estar falando pelo Espírito Santo, sendo melhor aplicarmos uma prova dou­trinária (a crença na plena humanidade de Jesus Cristo) aos que fazem essas afirmações. Semelhantemente, em 2 Jo 9, nos é dito que vigiemos e que não sejamos en­ganados por nenhum que “não está na doutrina de Cris­to”. Em 1 Coríntios, Paulo não somente fala do discernimento espiritual, mas também apresenta argu­mentos doutrinários em resposta à crença herética que “não há ressurreição dos mortos” (1 Co 15.12-19).

Em vez de opor o discernimento espiritual e o dou­trinário um contra o outro, deveríamos vê-los como dois lados ou aspectos da mesma atividade. A verdadeira espiritualidade inclui submissão da mente aos ensinos da Bíblia, e uma doutrina sã que inclui a crença de que nosso conhecimento da verdade de­pende da iluminação do Espírito Santo. Portanto, no verdadeiro discernimento e nos demais assuntos, o cristão com­pleto usa de seu conhecimento da dou­trina bíblica dada por Deus sendo sen­sível ao Espírito Santo.

GLOSSÁRIO DE TERMOS CHAVES

Aberração (doutrinária): Doutrina descentralizada ou erro de uma maneira muito forte, a tal ponto que a doutrina ou prática deveria rechaçar-se e os que a aceitam devem considerar-se estar em pecado, mesmo que possam muito bem ser cristãos. Também chamada de aberrante.

Apostasia: Ato de apostatar, ou des­viar-se de uma posição ortodoxa previa­mente mantida (como em certas deno­minações que em outros tempos manti­nham a ortodoxia mas que a têm rechaçado). (Adj.: apóstata).

Bíblico: De acordo ou fiel ao ensinamento da Bíblia. O que seja con­trário a seus ensinos não é bíblico, em­bora esta expressão normal mente se use somente quando o ensino bíblico viola­do é claro e de importância vital.

Cisma: Uma divisão dentre um grupo religioso, espe­cialmente a que divida os cristãos uns dos outros. (Adj.: cismático).

Seita: Um grupo religioso que tem sua origem como uma seita herética e mantém um compromisso fervente com a heresia. (Adj.: sectário – pode usar-se com refe­rência às tendências como também a uma forma de cul­to completa).

Denominação: Um corpo religioso que tem sua ori­gem como uma seita ou um movimento cristão, e geral­mente se classifica como um corpo cristão sem fazer caso de sua ortodoxia doutrinária.

Discernir E identificar a verdadeira natureza de um espírito, de uma doutrina, de uma prática, ou de um gru­po; e distinguir a verdade do erro, o erro extremo do erro leve, o divino do humano e diabólico.

Doutrina: O conteúdo de um ensino destinado a acei­tar-se e a crer-se como verdade.

Dogma: Uma doutrina que uma igreja ou uma seita espera que seus membros aceitem para poder permane­cer em comunhão; ou, uma doutrina que uma igreja ou uma seita espera que seus membros acei­tem simplesmente pela autoridade da igreja ou da seita. (Adj.: dogmático).

Excomungar: Uma ação disciplinar da igreja pela qual uma pessoa que recuse arrepender-se de fomentar ideias heré­ticas ou de cometer grande pecado, já não se aceita como membro da igreja. Essa pessoa não irá mais participar dos ritos da igreja, não será ensinada nem auxiliada de nenhum modo e, em casos extremos, pede-se que deixe de assistir às reuniões da igreja.

Heresia: Uma doutrina que é errô­nea de tal maneira que os cristãos de­vem apartar-se como igreja de todos os que a ensinam ou a aceitam; os que ade­rirem à heresia assumem que estão per­didos embora os cristãos sejam incapa­zes de dar opiniões definitivas sobre o assunto. O contrário de ortodoxia. (Adj.: herege)

Heterodoxo: Difere do ensino orto­doxo de uma maneira significante; pode ocorrer em grandes variantes.

Ortodoxia: A compilação dos ensi­nos cristão essenciais. Os que a abraçam deveriam aceitar-se como cristãos. O con­trário de heresia. (Adj.: ortodoxo)

Não-ortodoxo: Desvio da ortodoxia até certo ponto, embora não abrace ne­cessariamente a heresia explícita.

Sub-ortodoxo: Menos que ortodo­xo, mas ainda não explicitamente contrário à ortodoxia. Ortopraxis: A prática correta que se requer de qual­quer que se considere ser cristão.

Sã (doutrina): De acordo e fiel ao ensino bíblico e a ortodoxia além do mínimo necessário, a tal ponto que os cristãos possam animar-se a continuar desse modo.

ROBERT M. BOWMAN JR (TRADUÇÃO JOSUÉ GIAMARCO)

REVISTA “DEFESA DA FÉ” N°24 ANO 4

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